A PALAVRA FEITA HISTÓRIA

O prólogo do evangelho segundo João (Jo 1,1-18) é um dos textos mais densos e profundos de toda a Bíblia cristã, por isso também um dos mais estudados. Aqui oferecemos algumas linhas a seu respeito, completando com isso as considerações que estamos fazendo sobre as primeiras páginas dos evangelhos que consideram as origens de Jesus (cabe recordar que o evangelho segundo Marcos apresenta Jesus já na idade adulta, quando se apresenta para receber o batismo por João).

Para nosso texto, e a comunidade em que ele surgiu, Jesus deve ser compreendido na esteira da Sabedoria que agiu junto com Deus na criação e posteriormente ser manifestou a Israel. O texto de Pr 8,22-31 a apresenta numa intrigante ambigüidade entre criatura e criadora. Também Sb 7,21-28 atribui-lhe características que a aproximam do mundo divino. Já Eclo 24 apresenta-a encarregada de construir sua tenda no seio de Israel, manifestando a este os caminhos de Deus e da vida. Esta sabedoria, podemos ler nos escritos sapienciais, não se contenta em entender o mundo, estabelecer-lhe leis e regras de compreensão. Não está à procura da ordem e da harmonia. Pelo contrário, age no intuito de evidenciar o conflitivo, o problemático, o desordenado, apostando e exigindo o novo. Ressalta os absurdos da existência e os questiona. Basta ler com atenção o protesto de Jó, a fina ironia de Eclesiastes...

É a esta sabedoria que o Jesus joanino é vinculado, desde o início. Agente na criação, é rejeitado pelos seus. Vindo após João, é-lhe superior e por ele testemunhado. Nascido em circunstâncias pela Lei condenáveis, refaz o caminho de compreensão da ação de Deus: ele nasceu de Deus, cabe ousar esta heresia! Vindo ao mundo, ilumina os seres humanos, para que percebam o caminho que leva à verdade e à vida. E sendo a Sabedoria que desinstala, não esconde que sua missão acarreta conflitos, inevitáveis ao mesmo tempo que decisivos. A cruz está no final do relato não por acaso.

O prólogo do evangelho anuncia, então, o que haverá de ser o caminho de Jesus: a Sabedoria de Deus o revela aos humanos fazendo-se um deles, tornando-se carne, armando sua tenda itinerante, acompanhando os sem-teto e sem terra, de ontem e de hoje, no meio dos pobres, excluídos e abandonados. O Jesus da comunidade em que este evangelho surgiu é categoricamente a única mediação em relação ao divino. Diante dele a incumbência não é tanto a de substituí-lo ou representá-lo, mas principalmente segui-lo e se atrever a tomar as decisões aí implicadas.

Desta firma, nosso texto, assim como as introduções aos evangelhos das comunidades de Lucas e de Mateus, fala do natal de Jesus já lhe indicando a compreensão que tem de sua missão, de sua ação, de seu legado. As festividades de fim de ano nem sempre nos fazem perceber o quanto este recém-nascido é sinal de contradição. A leitura atenta dos textos, contudo, pode abrir olhos, mentes e coração, para que este Natal seja realmente significativo. Assim seja!

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)