A Campanha da Fraternidade deste ano, promovida de forma inédita por diversas igrejas cristãs, se nos apresenta com o tema "Dignidade humana e paz". E o lema "Novo milênio sem exclusões". Talvez a busca de consenso entre as igrejas tenha levado à proposição de um tema e lema mais genéricos. Ou, quem sabe, o fato de estarmos às portas de um novo milênio tenha motivado uma perspectiva mais abrangente, como o horizonte a nortear os caminhos de cristãos e cristãs.
De qualquer forma, cabe meditar sobre tema e lema, como orientadores de nossa ação e compromisso. Aqui detemo-nos na paz. Talvez não haja palavra mais desgastada. Também na Bíblia ela tem longo percurso. Aqui nos determos em duas passagens, uma da Bíblia hebraica e outra do Novo Testamento. Em outra oportunidade voltaremos ao assunto.
Estamos no século VIII antes de Jesus, perto do ano 700. Nesta época, um camponês do interior de Judá se levanta contra "os profetas que seduzem o meu povo". Trata-se de Miquéias, e suas palavras não deixam margem a dúvidas. Estes profetas proclamam paz a todas as pessoas que lhes põem algo na boca, mas aos que nada lhes oferecem declaram guerra (leia o texto completo em Mq 3,5). Troca-se a promessa de bem-estar vinda do alto pelo suborno, como se lerá mais abaixo, em 3,11. Paz aqui o que significará? Liberdade para os grandes continuarem a fazer o que bem entendem, com a certeza de que, estando Deus a seu lado, nada de mal lhes haveria de acontecer? Estaria acontecendo aí o mesmo que em tantas outras situações da história, em que a bênção divina encobriu injustiças, massacres e muito mais? Com certeza não é tal paz aquela proposta pela Campanha da Fraternidade deste ano!
O outro texto que mencionamos aqui é tirado do evangelho sugerido pela igreja católica para a reflexão de seus membros neste ano 2000: o evangelho segundo João. Numa etapa de sua narração, quando Jesus deixa suas últimas instruções e recomendações aos discípulos, a uma certa altura o mestre diz: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe nem se intimide vosso coração" (Jo 14,27). Também aqui é sugerido um discernimento sobre tipos e formas da paz. Sem que aqui possamos descer a detalhes, podemos dizer que pelo termo "mundo", especialmente na segunda parte do evangelho (Jo 13-20), se designam as forças hostis ao evangelho e aos seguidores e seguidoras de Jesus. Lembrando que no contexto de então era o império romano o grande propagandista da paz (a paz romana), aquele feita de guerras, violências e genocídios, é tentador pensar se aqui a comunidade joanina não está sendo desafiada a, em seu modo de viver, caracterizar de forma contundente sua distinção frente àquilo que o "mundo" está a oferecer. A proximidade da Campanha da Fraternidade é uma oportunidade para notarmos como este discernimento continua atual e exigente.
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POR:
Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)
Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br) |