A VERGONHA DO SALÁRIO

Estamos assistindo, atônitos, ao debate entre tucanos e a turma do "há governo, sou a favor", o pessoal do pefelê, sobre quem vai parecer bom mocinho, em ano eleitoral, ao levar a melhor na disputa pelo valor do salário mínimo. De repente, nem parece que são estes grupos, e alguns outros, que avalizaram a perversa política econômica dos últimos anos que, entre outras do "saco de maldades", manteve o salário mínimo com o valor vergonhoso em que se encontra hoje. A disputa por alguns reais a mais no valor a ser definido pode se transformar num bom trampolim para as pretensões eleitorais de muita gente neste final de ano e daqui a dois anos...

Quando vamos à Bíblia a partir de um quadro como este, é impossível não lembrar Tiago. Sua carta, lá no final do Novo Testamento é um dos textos mais agressivos contra a injustiça nas relações de trabalho. Esta é uma das grandes dificuldades que por séculos se tem tido ao lidar com esta carta. Pareceria ela um texto não cristão, de um lado, e incômodo, por outro.

Mas ele está lá, e certamente surgiu no seio de uma comunidade seguidora de Jesus, seguidora em particular de suas palavras, ensinamentos e preceitos. E, no tocante à questão do salário, suas palavras são contundentes e provocantes. Com certeza muitos gostariam de não as ver estampadas no Novo Testamento, ou, ouvindo-as desavisadamente, julgariam estar presenciando a expressão exaltada de algum sindicalista ligado à Pastoral Operária...

Mas consideremos então uma das passagens, o final do capítulo 4 e o início do capítulo 5 (Tg 4,13-5,6). Primeiramente, num tom um tanto zombeteiro, Tiago critica os comerciantes com seus planos e negociatas, escravos do dinheiro. O contraponto desta situação é dado pela apresentação da situação dos camponeses, numa crítica sem meias palavras aos latifundiários de então. A riqueza destes, o texto não tem dúvidas em afirmar, é construída pela sonegação do salário dos trabalhadores. Luxo de um lado, miséria e sofrimento de outro: duas faces da mesma moeda! Tiago não tem receios em vincular uma realidade a outra, como costumam fazer os economistas engomadinhos a serviço da política econômica "saco de maldades". Dirão, com certeza: são outros tempos, a realidade hoje é mais complexa. Mas parece que os seres humanos conseguem muitas vezes fazer a mesma coisa de outra forma e de maneira mais sofisticada.

Mas um último detalhe merece ser destacado. Os ouvidos do céu não estão abertos a escutar o estourar das champanhes dos jantares dos magnatas nem do pessoal do "saco de maldades", por aqueles sustentado. O que eles escutam é o clamor do salário retido, junto com o protesto dos trabalhadores explorados. Mais uma vez, dirão os moderninhos tucanos que não existe mais este negócio de exploração, isso é coisa do passado. Quem quiser acredite, mas quem quiser perceber como o salário sonegado tem voz e clama, releia o texto de Tiago. E possivelmente notará que ele, há mil e novecentos anos de distância de nós, parece estar vendo melhor as coisas que nossos déspotas, esclarecidos e arrogantes governantes e sua sustentação parlamentar.

PS: Para quem não sabe a que se refere o "saco de maldades", é bom explicar: trata-se de uma expressão usada por um presidente do Banco Central, já em tempos tucanos, para se referir às possibilidades de intervenção do governos na vida social e econômica do povo brasileiro. Expressão significativa, não? .

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)