No capítulo 5 dos Atos dos Apóstolos lemos a respeito de um dos julgamentos a que os apóstolos foram submetidos pelo sinédrio de Jerusalém. E a uma certa altura o sumo sacerdote os reprova da seguinte forma: "Enchestes Jerusalém com vossa doutrina, querendo fazer recair sobre nós o sangue deste homem" (At 5,28). Refere-se aqui ao fato de a morte de Jesus ter sido fruto, também, da ação das principais lideranças religiosas e políticas de Jerusalém, embora as causas fundamentais tenham se der buscadas no meio dos interesses e práticas romanas. Mas para nosso propósito baste notar que o sumo sacerdote não aceite ser responsabilizado por uma morte que sua corporação ajudou a fabricar. E, se não se pode imaginar que o sumo sacerdote esteja pensando em acusar o poderio romano, do qual é aliado, fica uma única possibilidade: a morte de Jesus é de responsabilidade dele mesmo e de seus fanáticos e rebeldes seguidores, que lhe atribuíram qualificativos e missões que o colocaram em rota de choque com o poder constituído, que não pôde fazer outra coisa senão reagir. Sinédrio e Pilatos não mataram o messias nazareno, apenas realizaram o trabalho de garantir a segurança nacional...
Talvez no caso de Jesus, seu julgamento e sua morte tenhamos mais condições de notar esta ímpia transferência de responsabilidades, que beira ao sarcasmo. No entanto não foi só nesse caso que tal processo se deu. Nos últimos dias, infelizmente, ele se fez presente de novo. Tomemos dois casos. No caso das fracassadas e truculentas manifestações em Porto Seguro, relativas aos 500 anos, as manifestações oficiais de que a culpa pelos choques, conflitos e repressão, que nos fazia lembrar os tempos da ditadura, que esse pessoal não perde oportunidade de mostrar que está aí, firme e forte, que a culpa era dos grupos indígenas e demais manifestantes, particularmente sem-terra. Na expressão do cada vez menos esclarecido ministro da cultura, os índios cuspiram na sala da festa para a qual foram convidados. E nesta semana a morte (ao que tudo indica, assassinato pelo aparato repressor) de um agricultor no contexto de uma das manifestações do MST serviu para imputar a este movimento a responsabilidade pelo ocorrido.
Também a ditadura militar e seus defensores sempre atribuíram aos grupos que resistiam a ela a responsabilidade pela truculência utilizada. Aliás, é delicioso, se não fosse trágico, ver a brava gente tucana usando os argumentos dos militares de outros tempos para justificar a repressão mandada fazer pelo déspota iluminado... Cerco de Porto Seguro, da capital, a possibilidade do uso das Forças Armadas para a repressão dos movimentos sociais.
De qualquer forma, a história do Brasil também está cheia de situações como estas. Também os analistas convencionais tenderam a colocar nas costas de Antônio Conselheiro e de sua gente a responsabilidade pelo massacre a que foram submetidos, como em Zumbi o destino trágico de sua gente de Palmares. É sempre assim, a elite fazendo ou mandando fazer o serviço sujo, e depois tirando o corpo fora, ao mesmo tempo que alerta para o fim certo de todo movimento que não esteja ajustado aos ditames estabelecidos, que não se contente com as migalhas que de vez em quando caem da mesa farta deles... O cristianismo se fez porque reagiu a este tipo de intimidação: "É preciso obedecer antes a Deus que aos homens" (At 5,29).
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POR:
Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais,
assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração
(abelha@cidadanet.org.br)
Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião,
assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP
(rafaeli@cidadanet.org.br)
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