APAGÕES E CRISES
Nestes últimos dias fomos bombardeados pelos apagões da crise do senado, da crise do desgoverno de FHC e da era tucana e da crise energética. Muitas leituras e tentativas de solucionar as crises têm sido feitas e escondidas nas mangas dos cartolas e de alguns dirigentes políticos. É sintoma do colapso deste governo que encobre crimes com outros crimes. É um crime colocar a culpa da crise energética no povo; bem como é um crime gastar o patrimônio publico para encobrir a corrupção e outras roubalheiras. Se no passado o presidente cassado Collor roubou do patrimônio publico, este governante já roubou muito mais. Nestes seis anos de governo só acompanhamos viagens, o jogo de favores políticos para a aprovação de projetos e de coberturas de roubos dos cofres públicos. FHC soube muito bem equacionar os bens públicos para encobrir a CPI ("O grande anão e seus 400 anões" no dizer de Jânio de Freitas) e manter a sua imagem de presidente democrático e preocupado com a situação do povo: miséria, saúde, educação. Com certeza a bandeira das próximas eleições será a de oferecer quilowatts para o povo. Outro dia destes circulou o desabafo de um brasileiro com o saco cheio. É o desabafo de quem não economizará energia. Nesta perspectiva podemos dizer que os cortes para a crise não residem em primeiro plano no sacrifício do povo (como por exemplo, tornar obsoletos frízeres, geladeiras, microondas e outros aparelhos elétricos), mas nos cortes de viagens, pagamento de dívida externa, salários exorbitantes de políticos e das propinas para abafar crimes e corrupção. É preciso que o povo comece a dizer não aos apagões e à crise desta política econômica. É preciso que o povo exerça a sua indignação e levante a voz contra este governo de fraudes e explorações. No entanto, faz-se necessário que o povo possa criativamente buscar possibilidades para sair desta crise que vem sendo instaurada.

Na história de Israel, não temos notícias de que o povo tenha vivido experiências de apagões, mas soube enfrentar com criatividade e indignação os descasos e desmandos de poder. Vejamos algumas luzes da experiência de luta do povo de Israel que nos podem servir de referência para nossa tarefa de recriar a política econômica e dizer que é possível viver neste país e se indignar e derrubar os dominantes corruptos e criminosos.

Numa leitura atenta do Primeiro Livro dos Reis iremos perceber que a experiência das tribos de Israel frente a monarquia de Salomão foi desastrosa, pois este construiu o seu aparato econômico (Palácio, Templo e exército) às custas da cobrança de tributos e taxas sobre a produção camponesa, empréstimos, alianças políticas e uso da religião. Diante desta política econômica de arraso e massacre, as tribos do Norte (Israel) protestaram e se indignaram. Daí nasce o cisma e a divisão entre Israel e Judá, pois as tribos de Israel foram exigir de seu filho Roboão uma mudança na política econômica. Roboão e seus conselheiros não deram ouvidos aos apelos e pedidos das tribos do Norte e, conseqüentemente estas se rebelaram e escolheram para si um outro governante para mudar os rumos da política salomônica. E o fracasso deste não impediu que a luta das tribos continuasse.

Outra luz iremos encontrar na luta do povo refletida nas profecias do VIII século (Amós, Oséias, Miquéias e Isaías). Estes profetas são porta-vozes dos anseios e protestos do povo frente às políticas econômicas que sugaram o povo. Na profecia de Amós nos deparamos com o grito dos camponeses que gradativamente foram perdendo as suas terras e garantias de vida frente à política expansionista de Jeroboão II. A profecia de Amós é reflexo do grito dos pobres diante do projeto monárquico que beneficiou a elite citadina em detrimento da miséria dos trabalhadores e trabalhadoras do campo. Luxo e lixo se misturando. Há indignação por trás dos oráculos de Amós contra os interesses palacianos, contra a prática do roubo feita pelos exércitos e pelo tributo e, sobretudo contra as formas da comercialização. Na contundente profecia de Oséias nos deparamos com a indignação do povo frente aos desmandos do poder e a forte exploração (a ponto de as filhas e noras serem entregues à prostituição). É a profecia que vai apontar onde estão de fato a prostituição e os filhos da prostituição (basta ler os primeiros capítulos da profecia). A indignação é tão forte que o povo (principalmente as mulheres) lança o seu grito dizendo que os chefes são pães queimados no forno (7,1-4) e dizem não ao processo de entrega dos filhos para o serviço do palácio ("... não haverá nascimento, não haverá filho, nem concepção... Dá-lhes, ó Senhor, mas que lhes darás? Dá-lhes uma mãe que aborte e seios secos": Os 9,11.14). Na profecia de Miquéias nos deparamos com o grito do "Meu Povo" que está sendo descarnado, cozido e comido pelos governantes através dos planos que são maquinados na calada da noite. Planos que implicam no roubo de terras (herança), no empobrecimento, na corrupção dos juizes e chefes (veja Mq 2-3). Já na profecia de Isaías encontramos o grito indignado dos órfãos e viúvas abandonados, injustiçados e destituídos de dignidade na cidade que é um antro de prostituição, infidelidade e corrupção.
Quantas vozes de indignação! Não podemos recriá-las frente ao apagão e à crise da política econômica da era tucana, acender estas luzes para lutar por transformação? É preciso acordar para acender as velas de luto e de protesto diante da morte e do enterro do Brasil que o governo FHC e a era tucana estão promovendo. As experiências de indignação do povo de Israel podem acordar a nossa memória e não deixar que o "apagão" apague definitivamente as nossas consciências.

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)