A PROFECIA E A LUTA PELA TERRA - A esperança do povo e o resgate da terra
Neste mês de julho celebraremos a luta dos agricultores e agricultoras por terra e vida digna. Vamos refletir acerca da luta pela terra hoje e nos tempos da Bíblia, na luta dos camponeses empobrecidos de Israel e da Galiléia. As nossas reflexões acompanharão os preparativos para a romaria da terra (que acontecerá no dia 23 de julho), cujo tema será: "Terra e alegria: conquistas do dia-a-dia".

A caminhada e a história da profecia de camponeses e camponesas em Israel e Judá palpitam e clamam pela questão agrária. Profecia que na luta pela terra denuncia a exploração de trabalhadoras e trabalhadores e deseja firmemente que aconteça e se torne realidade o projeto de terra e comida na mesa para todos. A profecia em Israel ameaça sem dó os proprietários de terra (aqueles que se apresentam como os únicos donos da terra) e denuncia com força e sem medo a existência dos empobrecidos (os desalojados e sem terra). A profecia grita contra os que se adonam das terras e parte em defesa dos camponeses e camponesas empobrecidos. Vamos nos preparar para a Romaria da Terra estudando e escutando as vozes da profecia de ontem e de hoje.

Para refletir acerca da profecia e luta pela terra será necessário enveredarmos por dois caminhos: resgatar o projeto de posse da terra que os profetas defendem e a leitura conjuntural que a profecia apresenta em relação à propriedade e exploração da terra nos seus dias. Nesta semana vamos refletir acerca do projeto de posse da terra defendido pelos profetas e, na próxima semana, refletiremos sobre a crítica dos profetas aos exploradores da terra.

O projeto de posse da terra defendido pelos profetas em Israel e Judá é o da sociedade tribal, na qual pastores e camponeses passam a viver e ocupar as terras livres e até então desocupadas (as montanhas). Neste projeto clânico o poder está na mão da grande família e a terra não é propriedade dos senhores que mandam nas cidades, mas é posse daqueles e daquelas que trabalhavam e trabalham na terra. A grande característica da sociedade tribal consiste no modelo de vida que fora criado na terra liberta (as montanhas que não recebiam o controle e jugo imposto pelos interesses do Egito e dos reis de Canaã). Interessante lembrar que o acesso à terra no período tribal se dá através do sorteio (Js 13) e a posse era coletiva. Assim os diferentes clãs procuravam evitar o grande abuso da venda de terras e a transformação da terra liberta em terra comercial e direitos individuais de propriedade. A terra não pode ser vendida, porque é da terra que se tira o sustento para todos. Nesta perspectiva o fruto da terra era destinado para suprir as necessidades de todos os membros do clã.

Para Israel, o projeto socialmente justo e igualitário é o ponto de partida de sua história. Por isso a experiência do tribalismo vai marcar toda a história e trajetória do povo de Israel, pois vai determinar a posse da terra como sendo do clã. Sabemos que, na época da assim chamada "tomada da terra", as planícies cananéias estavam tomadas e fortificadas pelas cidades-estado. Aos poucos foi acontecendo uma revolução social, em que contigentes populacionais oprimidos migram das áreas de domínio do sistema feudal cananeu e passam a habitar nas montanhas pouco habitadas constituindo uma sociedade alternativa. Por isso podemos dizer que a experiência tribal se dá numa terra liberta. No início o povo de Deus é constituído de colonos e colonas sem terra acampados nos morros! Acampados que buscam um projeto diferente e alternativo. Projeto oposto ao que imperava nas cidades cananéias.

A experiência tribal vai ser constantemente relida pelos profetas que olham e analisam profundamente o projeto falido dos reis de Israel e Judá. Os profetas e o movimento camponês em Israel se nutre do projeto de terra para todos e da partilha dos seus bens. Neste sentido que a profecia em Israel luta em defesa dos camponeses e camponesas que têm suas terras tomadas, roubadas pelo Estado e suas instituições. Caso claríssimo de denúncia do roubo de terras promovido pelos reis e sua corte é o da vinha de Nabote. O texto nos apresenta, por um lado, a religião e o tribunal sendo utilizados como instrumentos para o rei e a corte adquirir as terras de Nabote. Por outro lado, a profecia de Elias, que condena esta ação violenta e opressora contra os pobres. O profeta Elias vai até à vinha de Nabote, ao encontro de Acabe, e ali apresenta a sua crítica ao poder que "mata e ainda por cima rouba" e a sua maldição ao rei. Neste texto temos uma amostra clara de como a ação profética vai ao encontro dos acontecimentos, vai até o lugar social e econômico em que se dá o conflito, ali toma partido em defesa dos empobrecidos e ali promulga a denúncia e condenação. Amaldiçoa os que agem com a mais extrema violência: roubam, tomam e matam os que são os legítimos donos das terras. Daí que não se pode vender a terra nem tampouco tomar as terras das outras famílias. Nesta perspectiva podemos ler os oráculos contra o acúmulo de terra presente nas profecias de Isaías (5,8s) e Miquéias (2,1-5). O projeto dos profetas busca resgatar a experiência tribal de que há terra para todos e que é de suma importância que todos tenham acesso a ela e a seus frutos.

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)