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Um dos grandes trunfos da política econômica neoliberal, tucana e do fernandismo foi a imobilização das lutas populares. Estes que agora estão no poder conseguiram este feito através do esvaziamento da luta nos seus princípios e objetivos e a não divulgação de luta e até mesmo a deturpação e manipulação da opinião pública contra as lutas sociais. Eis o desserviço da mídia. Resultado deste processo de dominação ideológica aparece de maneira clara no discurso de resignação e sacrifício do povo frente à crise energética e aos riscos do apagão.
Pensando a partir de um encontro com agentes de pastoral acerca dos desafios e perspectivas para a construção de uma nova sociedade, fomos buscar luzes nas experiências de rebeldia dos hebreus e das comunidades proféticas.
A rebeldia dos hebreus e das hebréias frente aos desmandos dos reis de Canaã e do poderio do faraó do Egito se apresenta com diferentes matizes. Gostaríamos de destacar esta rebeldia em quatro aspectos fundamentais para a luta de enfrentamento aos projetos de uma política econômica assassina e para a construção de uma sociedade diferente.
A rebeldia dos hebreus, que eram considerados fora-da-lei pelo poder dominante, começa a partir do momento que os grupos oprimidos acreditam na possibilidade de mudança. Acreditam num projeto maior e diferente. Este aspecto está presente na promessa de posse da terra prometida, terra que mana leite e mel (na releitura promovida pela rebeldia de Antônio Conselheiro e seu Belo Monte é a "terra da promissão, onde corre um rio de leite, e são de cuscuz de milho os barrancos"). A promessa da terra como dádiva de Deus se transforma no projeto político-econômico da herança. Dádiva e herança, promessa e realidade na construção de um projeto capaz de vencer e derrotar o projeto dos reis cananeus e do faraó.
O segundo aspecto reside na sabedoria das mulheres empobrecidas que lutam para defender a vida de seus filhos. A sabedoria das parteiras (Ex 1,15-22), da mãe de Moisés (Ex 2,1-10), de Miriam (Ex 2,1-10 e 15,20-21) e muitas hebréias nos revela que o poder tem limites e fraquezas. E o faraó depende de duas parteiras para realizar o seu projeto. Eis uma grande ironia. Os hebreus e as hebréias descobriram que o projeto econômico de acúmulo da produção do Egito e dos reis de Canaã é dependente da lógica de tributos. Ao decretarem um não a esta lógica os hebreus colocaram em xeque-mate a economia dos governantes. O não pagamento de tributos implica um esvaziamento dos armazéns. Esta ação organizada dos grupos oprimidos é uma grande ameaça econômica. A sabedoria do povo é uma ameaça ao poder...
O terceiro aspecto da luta e caminhada dos hebreus rumo a uma sociedade diferente está presente nas estratégias de luta. Estas estratégias são apresentadas no confronto das lideranças do povo (Moisés e Aarão) e o Faraó e sua corte descritas no livro dos sinais (Ex 7-12). Este confronto se dá em três níveis: em alguns sinais os hebreus causam incômodos, noutros sinais eles mexem e destroçam a economia do opressor e nos sinais derradeiros decretam o fim do faraó e de sua corte. No entanto, dentro deste livro de sinais o povo deve saber que o poder opressor não se converte e que não se pode confiar nas suas falsas piedades, pois o opressor tem coração endurecido.
O quarto aspecto consiste no fortalecimento da luta. Os hebreus são fortalecidos no projeto de conquista da terra quando conseguem agrupar outros grupos oprimidos (vale salientar que não se trata de uma mera aliança política, mas um pacto profundo na defesa da vida, da comida e da terra). No famoso relato do cerco de Jericó (Js 2 e 6) o grupo liderado por Josué conquista a terra mediante o pacto que fazem com o grupo liderado por Raab. O cerco de Jericó é para pôr fim aos grupos que dominam e governam a cidade (atualmente muitos grupos religiosos vêm promovendo noite de vigílias de oração e louvor com o nome de cerco de Jericó. Seria interessante se estes grupos fundamentalistas promovessem um cerco ao Palácio da Alvorada, para expulsar e destruir as nossas lideranças políticas corruptas, subservientes ao FMI e pelegas...).
Na atual crise energética e do apagão precisamos aprender dos hebreus e das hebréias a arte da rebeldia, força capaz de destronar governantes que se arvoram de sabedoria, de destruir políticos corruptos e de construir um novo projeto econômico.
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POR:
Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais,
assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração
(abelha@cidadanet.org.br)
Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP
(rafaeli@cidadanet.org.br) |