"CASA GRANDE SIM. E A SENZALA?"
Nesta semana se completaram os cem anos do nascimento de Gilberto Freyre, o notável intelectual que ensinou o Brasil a se olhar sem receios ou complexo de inferioridade por conta do caráter miscigenado de sua população. No contexto de teorias racistas e, portanto, críticas da gênese do povo brasileiro, o sociólogo pernambucano faz um rasgado elogio à miscigenação, e em função de uma brilhante escrita aliada a uma bibliografia invejável para alguém com 33 anos, fez de Casa-grande e senzala o livro de número um da identidade nacional.

Tudo bem, não fosse o tom quase ufanista com que descreve e analisa a colonização portuguesa e a maneira quase cínica com que, se não passa ao largo, acaba por relativizar, e colocar sob lentes róseas, a violência da escravidão, o massacre das populações indígenas e, enfim, a inserção, pela porta dos fundos, do Brasil na civilização ocidental. Encanta a Gilberto Freyre o fato de que, a contrabalançar tudo, as relações senhor x escravo, o latifúndio despótico, a monocultura empobrecedora, a miscigenação tenha funcionado como elemento poderoso para apaziguar os inevitáveis conflitos que deste modelo e formação econômica adviriam. Importam-lhe mais as por ele chamadas "zonas de confraternização" entre brancos e negros que teriam surgido do que o pelourinho, o fato de que as relações entre estes dois contingentes sempre foram desiguais. E se a miscigenação é o grande valor, o elogio vai em particular para o homem branco, a mulher índia e a mulher negra. O intercâmbio entre as raças passa pela cama. A sensualidade aí suposta pervade todas as páginas de Casa-grande e Senzala e faz de Gilberto Freyre um historiador da intimidade brasileira, suficiente, segundo ele, para explicar nossas origens e formação social. Estruturas políticas e econômicas, que colocariam o problema em outros parâmetros e certamente forneceriam uma visão muito menos idílica e mais crítica dos últimos 500 de nossa terra, ficam em modestíssimo segundo plano na obra de Freyre.

Numa reportagem mostrada na televisão, interrogado se sua obra não apresenta uma visão das coisas muito marcada pela perspectiva da casa-grande e, portanto, "adocicada" (termo que ele gosta de usar) da realidade dura e violenta aqui vivida, e se não seria necessário escrever uma Senzala e casa-grande tendo o povo negro como sujeito principal, Freyre, visivelmente incomodado, respondeu que esta seria uma boa idéia, mas que não havia aparecido ainda o gênio capaz de fazer a obra alternativa à sua. Deixando de lado o evidente auto-elogio, o que fica é que Freyre, embora a contragosto, acaba aí por reconhecer duas coisas. Em primeiro lugar que sua obra é localizada, e escrita da perspectiva do senhor aristocrata da casa-grande. Em segundo lugar, que a história do Brasil ainda não terá sido escrita, pois não terá havido quem soubesse olhar, da perspectiva dos contigentes escravizados (sem falar das populações indígenas!) a realidade dos últimos quinhentos anos.

Aí mora a questão. Não acertamos as contas com a escravidão e com o massacre das populações indígenas. A Bíblia, pela forma como conta a história do povo de Israel, pela presença incômoda dos profetas e seus movimentos, pela centralidade que ocupa no testamento cristão um crucificado, pode ser um alento nesta empreitada que está por ser feita. Para além de todas as "adocicações".

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais,
assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração
(abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião,
assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP
(rafaeli@cidadanet.org.br)

 
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