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Por volta do ano 330 a.C. a terra de Judá foi incorporada ao grande império grego que Alexandre Magno estava estruturando, para admiração e espanto gerais. E com isso começou um processo de expansão social e cultural sem precedentes, a que chamamos helenismo, de sorte que o grego foi se tornando a língua mais falada (basta recordar que o Novo Testamento inteiro foi escrito em grego e que na capital do império romano a língua mais falada não era o latim!), os valores foram sendo assimilados e incorporados pelos diversos povos, que não conseguiam resistir àquele ímpeto de novidades trazidas pelos arautos do desenvolvimento, da esperança de progresso, para usar termos nossos. Ou a civilização grega, ou a barbárie.
Mas... teimoso aquele povo judeu! Desconfiado, porque "quando a esmola é demais..." A helenização, mesmo tendo ocorrido, não teve aceitação incondicional. De posse de suas tradições, a gente atrasada do povo de Deus se atreveu a questionar as novas ondas de novidades que aportavam. E logo percebeu que alguma coisa não ia bem. O livro do Qohelet (ou Eclesiastes) é uma denúncia sarcástica e debochada do novo modo de organização da sociedade que ia se articulando sob o manto do crescimento e da inserção no mundo desenvolvido: a escravidão em massa. E logo fez revolução: a revolta dos macabeus, narrada nos dois livros que levam este nome, é bem expressão, entre várias contradições, de um empenho em manter tradições pátrias, em enfrentar a coisificação de pessoas em curso. Os agentes da civilização estavam transformando os membros do povo em "coisa que fala", expressão que se tornará usual nos séculos seguintes para designar a gente escrava. E, aliás, todo o percurso histórico posterior, incluída aí a trajetória das primeiras comunidades seguidoras de Jesus refletida no Novo Testamento, será de uma insistente e atrevida luta contra os agentes civilizadores, portadores de sabedoria, de paz, de conhecimento, de cruzes, de exclusões, de totalitarismos...
Essas reflexões surgem do impacto vindo do impasse explícito verificado na chamada "missa dos 500 anos", em Porto Seguro, dia 26 passado. O cardeal vindo do Vaticano parecia não saber, ou se esqueceu, onde estava pisando: em terra pataxó. Ou então, a se julgar pela homilia que fez, considera também que os povos indígenas aqui existentes eram filhos da barbárie e do obscurantismo, necessitados indispensavelmente da ação salvadora da mão branca e da catequese cristã. Além disso, embutidos no pacote vieram o extermínio, a escravidão, a destruição da natureza, a democracia racial em que a alguns caberão as riquezas, e aos demais algumas migalhas. Em relação a isto se pretendia o silêncio. O mesmo cardeal que envidou esforços para a libertação do farsante-doente Pinochet poderia ter sido menos ufanista e mais humilde, como vêm tentando ser, a duras penas e golpes, alguns setores da igreja católica no Brasil, que não temem falar corajosamente de nova evangelização, expressão cunhada por João Paulo II, mas que para muitos parece significar apenas envernizar a velha.
Neste aspecto, cabe parabenizar os representantes indígenas por mais este ato de coragem e bravura. Por seu destemor em modificar radicalmente, com sua fala e sua presença, o enredo de uma festa definido em Roma, não aqui, em que lhes caberia apenas o papel de figurinos. Por cobrarem dos cristãos e de suas igrejas uma revisão real, humilde, sincera de sua presença neste último meio milênio nestas terras. Por não se entregarem depois que a polícia e as bombas de FHC e ACM quiseram, mais uma vez, impedi-los de falar e de se fazer presentes (aliás, onde está a barbárie aí?). Por flecharem o relógio hipócrita da Globo. E, de junto de Deus, Bartolomeu de las Casas terá dado pulos de alegria, junto com Zumbi, padre Josimo, Santo Dias, Antônio Conselheiro e tanta gente que sonhou e apostou num Brasil com outra cara, com lugar para todos os seus filhos e filhas. Gente que tem merecido a pecha de fanática, subversiva, insubmissa e revoltada, como os judeus do tempo helenista e romano também foram classificados.
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