A luta cotidiana, a seca, o financiamento que não sai, o atravessador que paga um preço ínfimo por aquilo que foi produzido, e a gente tem de vender para não estragar... A tentação de largar tudo e ir para a cidade, ou virar empregado do latifundiário ao lado, de olho na nossa terra... Com certeza ofertas não faltam.
Uma parábola de Jesus nos coloca em contato com uma situação parecida, que ocorria naqueles tempos, distantes e tão próximos do que vivemos...
Escutem. Um homem saiu para semear. Enquanto semeava, uma parte caiu à beira do caminho; os passarinhos foram e comeram tudo. Outra parte caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra; brotou logo, porque a terra não era profunda. Porém, quando saiu o sol, os brotos se queimaram e secaram, porque não tinham raiz. Outra parte caiu no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram, a sufocaram, e ela não deu fruto. Outra parte caiu em terra boa e deu fruto, brotando e crescendo; rendeu trinta, sessenta e até cem por um. E Jesus dizia: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça! (Mc 4,3-9)
No texto do evangelho a seqüência é destinada a fazer uma comparação com a parábola, identificando a semente com a palavra de Deus, o semeador com quem a anuncia e os diversos terrenos com as variadas formas de aceitar e acolher esta mesma palavra. Mas nós vamos ficar com a parábola e considerar atentamente a história surpreendente que aí é narrada.
É o trabalho da gente camponesa que está por debaixo deste enredo! Trabalho duro, de sol a sol, dificultado agora por conta da política praticada pelo poder romano e pelos seus representantes em Israel. A situação no campo é de extrema penúria. Há grandes extensões de terra na mão de poucos, particularmente romanos ou seus representantes. As aristocracias de Tiberíades e Jerusalém eram também proprietárias de muita terra, em geral as mais férteis. A produção visa particularmente a exportação. Por conta de tanta terra que foi dada aos conquistadores romanos, a gente do povo de Deus não tinha muitas alternativas: ir para a cidade, virar escravo, trabalhar como diarista, bóia-fria ou então em regime de meeiro. São as parábolas de Jesus que nos colocam em contato com o drama vivido pela gente camponesa de seu tempo.
No entanto, nossa parábola fala de um trabalhador "livre", de alguém que resiste, que não se sujeita a cumprir os papéis subalternos e submissos que o sistema está propondo. Mas é estranho, até absurdo! Seu trabalho se dá no lançar sementes à beira do caminho, na pedra, entre espinhos e, finalmente, em terra boa... Seria ele um trabalhador relaxado? Ou deve estar em situação absolutamente precária? Não é possível passar por cima: a parábola está chamando a atenção para as duras condições de trabalho dos camponeses pobres, convoca para perceber como é grave a realidade que é narrada! À família camponesa que não baixa a cabeça só resta a beira da estrada, o terreno com pedras, ou cheio de espinhos, e isso se sobrar. Mas não é assim mesmo? O Brasil não está cheio de plantações à beira das estradas? E por que?
Porém o texto não é lamento. Ele faz pensar sobre o absurdo da situação concreta do trabalho camponês. Mas aponta para outro horizonte: o da alegria da fartura, o da produção abundante. Na verdade as três primeiras etapas do trabalho do camponês aparecem num crescendo, apontando para a semeadura em terra boa, com o resultado esperado. A persistência do trabalhador terá sua recompensa. Além disso, deve-se notar que o texto não fala de destinatário da produção, que alguém se aposse dela. Seria inevitável pensar nisso, na medida em que o trabalhador tinha de entregar boa parte de sua produção por meio de variados impostos.
Mas no horizonte do texto o destinatário da produção não pode ser senão o semeador, quem trabalha a terra! Nossa parábola se atreve a propor a utopia da terra libertada: sem donos, sem quem se aposse do trabalho de outros, sem que um plante para outro colher. Aqui está o objetivo da parábola, seu interesse principal: ousa apontar novas perspectivas, novas relações. Ela sonha, o mesmo tempo que provoca. Que ressonância não terá tido aos ouvidos de gente arrancada de sua terra ou que nela sobrevive precariamente? É necessário não entregar-se, não fazer o jogo dos que se julgam vitoriosos. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!
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