"PM destrói monumento dos índios na Bahia", esta foi a manchete de jornal. Destruído por ser expressão antagônica ao festival em que querem transformar a chegada, de toda forma predatória, dos portugueses a estas terras. Denúncia dos massacres aqui perpetrados pelos que haveriam, desta forma, de inserir o Brasil no mundo que se globalizava, expressão eloqüente de que a submissão serviçal aos ditames dos organismos internacionais, que há quinhentos anos mandam por aqui, é produtora de miséria e morte, o monumento não pode viver. Sua presença é inaceitável, em pretenso contexto de plenas liberdades. A nação indígena não pode falar, como seu índio, o Galdino, não pôde, impunemente, há alguns anos, deitar-se num banco de praça na capital do país, obviamente civilizado.
Há pouco mais de dez anos foi outro o monumento destruído, também pelo aparato repressor: aquele erigido em Volta Redonda em memória de três operários assassinados nas dependências da Companhia Siderúrgica Nacional, no contexto de uma série de manifestações de cunho trabalhista. Onde já se viu homenagear gente anônima, provavelmente iletrada e certamente subversiva?
Há mais tempo foi toda uma cidade e uma história para debaixo das águas. Numa das regiões mais secas do Brasil, o arraial que ressurgiu das cinzas daquele organizado por Antônio Conselheiro e exemplarmente arrasado pelas tropas republicanas, no final do século passado, tornou-se chão para uma represa, construída exatamente em cima donde, durante algum tempo, se vivera a experiência de uma vida mais autônoma e esperançosa. A represa quis esconder e sepultar o quê: os restos da cidadela ou os vestígios da barbárie obrada pela civilização?
Quando se crucificava alguém, nos tempos bíblicos, e no tempo de Jesus a cruz era instrumento de penalização exclusivo dos romanos, o que se buscava era o extermínio, não só da vida, mas principalmente da memória do condenado. Daí o potencial de tremenda intimidação que a cruz trazia consigo, por conta de sua crueldade extrema: o que se buscava com isso não era tanto e somente punir o condenado, mas aterrorizar quem eventualmente estivesse ligado ao punido ou à causa por ele representada. Daí que a cruz não fosse utilizada em qualquer oportunidade, nem por qualquer razão: ela se destinava principalmente a líderes tidos como rebeldes, perigosos para a segurança nacional. Não estranha, portanto, que se buscasse, com a cruz, a eliminação da memória e da causa representada por aquele agora penalizado.
Com Jesus não foi diferente. Bem que quiseram calá-lo. Bem que, entre seus seguidores, houve quem sugerisse silenciar sua cruz (cf. Gl 6,12), talvez como uma fatalidade ou um mal-entendido, que não teria nada a significar para o evento Jesus. A levantar o monumento, ou melhor, a cruz está Paulo. Mais que de qualquer outra forma, para Paulo Jesus fala eloqüentemente pela cruz. O primeiro capítulo da primeira carta endereçada à comunidade de Corinto o deixa claramente manifesto, bem como evidencia o quanto, inclusive no seio da comunidade, se propunha colocar a cruz para escanteio. Ao nos aproximarmos da semana santa, temos uma boa oportunidade de, suprema inversão, celebrarmos a memória de um derrotado assumido por Deus. O problema é que este certamente derrotado, por ter sido convertido em vitorioso por Deus, chegou a nós como vitorioso e ao lado dos vencedores. Mas, com certeza, ele recebeu mais alguns golpes nestes dias, aqueles que foram desferidos contra o monumento dos índios no interior da Bahia, onde a esquadra dos colonizadores chegou há quinhentos anos atrás, para sua destruição.
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