Estamos nas proximidades da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Vamos refletir sobre o significado da unidade para a caminhada das comunidades, mas sobretudo pensar a unidade na luta contra os projetos de morte do neo-capitalismo. Numa leitura atenta de João 15 iremos encontrar um conjunto de imagens vindas do mundo rural e que se apresentam carregadas de sentido e significado para a caminhada, organização e enfrentamento dos problemas e conflitos presentes na vida da comunidade. Olhando para o conjunto de Jo 15-17 veremos que a alegoria da videira (15,1-8) se desdobra num discurso de Jesus e numa oração (15,9-16,33 e 17,1-26). Eles focalizam o apelo de unidade, a fidelidade e a prática do amor, a proposta de permanecerem firmes, os conflitos com o mundo e o crer.
A alegoria da videira em Jo 15 evoca as inúmeras passagens na tradição de Israel (profética e sapiencial) que comparam o povo com a videira (veja: Sl 80,9-16; Is 5,1-7; Jr 2,21; Ez 15,1-8; 17,5-10; 19, 10-14 e Os 10,1) destacando a incredulidade e abandono do projeto de Deus por parte do povo. Jo 15 deixa transparecer que a comunidade joanina conhecia muito bem a vida no campo (roça) e as técnicas e a arte para fazer a videira produzir. Encontramos na alegoria a linguagem própria do mundo camponês: a produção da uva (15,1.4s). Alguns verbos ilustram a atividade do agricultor (15,1): produzir (15,2.4s.8.16), cortar (15,2), podar (15,2) para a maior produção de fruto (15,2.4s.8.16). O que não produz é lançado fora, seca, é ajuntado e queimado (15,6). O agricultor naqueles tempos tinha que dominar com arte e técnica a produção por causa do grande peso da opressão econômica imposta pelos romanos.
Enfim, é a partir do cotidiano de luta, suor em meio ao processo de produção e da memória das antigas tradições proféticas e sapienciais que a comunidade joanina procura refletir os problemas e conflitos ao redor da unidade, da perseguição, da exploração, do discipulado e, principalmente, a reprodução na comunidade da lógica imperial na relação escravo x senhor (15,15.20).
Uma das questões a aparecer na alegoria é o apelo à unidade: fiquem unidos a mim e quem ficar unido a mim dará frutos. A temática da unidade faz a grande costura dos capítulos 15-17 do evangelho. A comunidade deve buscar a unidade para enfrentar o "mundo" que estava quebrando a vida de muitas comunidades. Diante desta organização política e econômica avassaladora é que o evangelho convoca a comunidade para a unidade. A alegoria da videira apresenta dois pontos fundamentais para a unidade: estar limpo e estar unido à videira para produzir frutos. Que frutos a comunidade deve produzir?
A missão das comunidades é superar gradativamente a relação "servo" x "senhor" (base de toda a organização sócio-econômica do império) com um novo critério que é o amor: este é o conteúdo de Jo 15,9-17. Na igualdade e no amor as comunidades devem caminhar e devem se basear as novas relações sociais. Por certo, por causa destas novas bases é que as comunidades serão perseguidas. Assim a comunidade para produzir bons frutos deve viver o mandamento novo e dar testemunho de Jesus ao mundo. Amor que proporcionará a verdadeira alegria (15,11; 16,22; 17,13) e a verdadeira paz (14,27).
A comunidade joanina é convocada a buscar a unidade que tem como base a aliança com Deus que é estabelecida desde as tradições proféticas pelas relações de solidariedade. Agora a comunidade, conforme os v.9-17, tem como critério a prática do amor que exprime um sentimento coletivo que sai das entranhas e que é capaz de gerar novas relações humanas, libertar das amarras da opressão e quebrar a lógica de dominação e submissão.
Este apelo à união reaparece no capítulo 17. Ali temos um discurso que gira em torno da união. Unidade que acontece ao redor do nome e que acontece por meio da palavra. No nome de Deus a comunidade se fundamenta e alimenta a sua espiritualidade. É a fé no Deus, que é Pai Santo, que fortifica e leva a comunidade à união: "Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que tu me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um..." (17,11). Pela palavra a comunidade é desafiada a ser geradora de vida e edificadora da comunidade e da unidade. Pela palavra a comunidade deve superar a intolerância e aceitar outros grupos e comunidades. Pela palavra a comunidade deve testemunhar: "Eu não te peço só por estes, mas também por aqueles que vão acreditar em mim por causa da palavra deles, para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti. E para que também eles estejam em nós, a fim de que o mundo acredite que tu me enviaste..." (17,20-21).
Como vimos, a comunidade é convocada em nome de Deus, pela força da palavra-testemunho, pela prática da solidariedade e pela construção das novas relações sociais e econômicas a viver a unidade. Fiquem unidos a mim! Fiquem unidos para manifestar a glória do Pai! Produzam frutos e se tornem discípulos...
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