A Campanha da Fraternidade está aí, espalhando por todo lado o grande anseio, de que o próximo milênio possa varrer do mapa a exclusão, de todos os tipos e formas. Para dar um exemplo, a própria Campanha tomou uma direção peculiar: foi assumida por um conjunto de igrejas cristãs, aquelas que no Brasil formam o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs). Em vez de anátemas mútuos, esforços conjuntos para fazer com que os ideais do Evangelho de Jesus atinjam um maior número de consciências e sejam questionadores contumazes de tudo aquilo que atenta contra a vida humana.
O testemunho de uma Campanha feita com o tom da unidade é eloqüente. Deve, só por isso, chamar a atenção e fazer pensar. Mas o que importa, já que o tema não é ecumenismo, é refletir e agir em conformidade com o que se proclama e busca. E se o que se anseia é a superação das exclusões, aí se tem muito trabalho pela frente. Uma Campanha da Fraternidade não é suficiente para dobrar corações empedernidos, mudar políticas econômicas assassinas e coisas do tipo.
Mas ela pode trazer à tona situações, realidades, aquelas que não se quer ver e não ocupam as manchetes triunfalistas dos jornais, para que o desafio da conversão se coloque, mais uma vez, de forma dramática. E para que não se procure esconder a exclusão nem pela via da semântica, como vimos na coluna da semana passada, nem por qualquer outro subterfúgio escapista.
O texto de Is 58, que aparece por estes dias na liturgia católica, é bastante expressivo nesta direção, ao indicar aquilo que é do agrado de Javé, e que ele exige. Nada de jejuns intermináveis, ou de humilhações sem sentido. "O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente" (v. 6-7). O profeta anônimo do pós-exílio indigna-se contra o que considera insensatez; o rito não é expressão da vida: "Acontece que, mesmo enquanto estão jejuando, vocês só cuidam dos próprios interesses e continuam explorando quem trabalha para vocês" (v.3). A irritação profética é, portanto, contra uma situação de injustiça e exploração (hoje com novas formas, inclusive a exclusão) e contra expressões religiosas que não só se despreocupam das realidades de sofrimento e dor, mas sutilmente as encobrem.
Já que o cristianismo, que em nossa terra vem tendo seus 500 anos comemorados, por vezes com a sensação de triunfalismo pouco atento à história, já que ele chegou aqui de mãos dadas com o colonizador ("a fé e o império", no dizer de Camões), matador de índios e escravizador de negros, o desafio se coloca de forma imperiosa. Afinal de contas, com quem queremos ver o cristianismo de mãos dadas? A questão da conversão passa pelo enfrentamento desta questão.
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POR:
Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração
(abelha@cidadanet.org.br)
Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP
(rafaeli@cidadanet.org.br)
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