MORAL E POLITICA SE MISTURAM

No Israel bíblico (e certamente em outras latitudes e longitudes) desenvolvia-se uma consciência bastante aguçada a respeito do poder e de suas ações. Pérolas neste sentido se encontram por toda parte na Bíblia hebraica, particularmente nos livros proféticos. Num contexto em que o soberano era entendido (ou se entendia) muito mais como representante da divindade que depositário dos anseios e necessidades populares, nem por isso se deixou de cobrar dele posições e atitudes condizentes com uma certa ética. E para dar conta disso, os próprios mandatários faziam questão de afirmar sua preocupação com os pobres, desvalidos, etc.

É porque havia tal consciência que os profetas podiam falar o que falavam. Mesmo que fossem taxados de loucos, não o eram por falarem despropósitos, mas por “colocarem o dedo na ferida”./B> Assim, por exemplo, Jeremias pode censurar o rei Joaquim por se preocupar apenas com seus próprios interesses e, junto com isso, ser agente de violência e opressão. Para reforçar o argumento contrapõe o rei a seu pai, que “praticou o direito e a justiça... julgou a causa do pobre e do indigente” (Jr 22,15-16). Vale insistir: o fato de os monarcas se apresentarem como porta-vozes e representantes da divindade não impediu a consciência crítica, o julgamento moral, a reivindicação por um determinado comportamento, o protesto contra as violações do elementar exercício do poder.

Estas observações vêm a propósito de uma querela que, em tempo muito oportuno, vem sacudindo alguns ambientes. A discussão vem da academia, mas certamente repercute em outros contextos. Ou melhor: foi justamente o senso popular de que algo de muito podre está a perpassar os corredores, salas e gabinetes do governo federal, a ponto de a proposta de uma CPI para investigar a corrupção instalada nestes âmbitos ter recebido apoio maciço da população (algumas pesquisas falaram em mais de 80%), foi justamente este clamor por “ética na política” e no trato da coisa pública que levou a um ilustre amigo do presidente, um dos mais próximos, a dar declarações a jornais e escrever artigos com o tom “Moral e política não se misturam”. Ou mais exatamente: foram os meios escandalosamente anti-éticos utilizados para enterrar a CPI da corrupção, forçando, com argumentos “de peso”, que levaram o renomado filósofo a se pronunciar desta maneira.

Primeiro chame-se a atenção para a oportunidade da elocubração filosófica, certamente desinteressada... Em segundo lugar, será que moral e política não se misturam apenas quando é conveniente para quem está no poder? Será baseado neste argumento que este governo enterrou inúmeras CPIs, realizou privatizações que do ponto de vista moral (e não só) cheiram mal, salvou bancos falidos com nosso dinheiro e outras coisas mais? Que tal voltarmos à era dos déspotas absolutos, para quem “a lei sou eu”?

Talvez seja tentação, a de o sujeito do poder se ver isento de sujeitar-se a leis objetivas, e até de princípios que antes dizia cultivar (o “esqueçam tudo que eu escrevi” é bastante eloqüente). O que não é possível é assistir impassivo a este festival de descaso com a coisa pública em nome de uma retórica filosófica ou de qualquer feitio, mas certamente autoritária. O profeta, que terá sido chamado no seu tempo de moralista (ou assemelhado), é um precioso estímulo.

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)