O tempo passa, o tempo voa, um milênio se vai, outro milênio vem, e a arrogância de FHC, bem como as lições políticas advindas de Brasília continuam as mesmas. Primeiro foi o presidente, ex-sociólogo, despejando seus venenos e deboches contra o Fórum Social Mundial, recentemente encerrado em Porto Alegre, espaço em que se compartilharam temores quanto à realidade atual e se sugeriram alternativas para se enfrentar a pobreza, a exclusão, a tirania do capital. Não, o projeto de FHC é outro: amarrar o destino do Brasil e de sua gente às necessidades e caprichos do exterior. Não é interessante que um veto do desenvolvido e distante Canadá cause terremoto em Brasília e desemprego nos frigoríficos daqui? E o nosso povo sem condições de comer carne...
Não é de hoje, devemos reconhecer, que se pensa e governa o Brasil dessa forma, de costas para seu povo, virado para a Europa e a América do Norte. Há quinhentos anos vem sendo assim (por isso na festa do "Descobrimento" fizeram o que fizeram com os grupos indígenas e populares). E em Judá o profeta Sofonias constatava que a elite de Jerusalém, vestida com roupas estrangeiras, tinha mais olhos para a Assíria e para os próprios interesses que para outra coisa (Sf 1).
A profecia de Sofonias está situada num ambiente de muita exploração da parte dos regentes (ministros, filhos do rei, príncipes, comerciantes, generais e sacerdotes), que aumentou gradativamente o empobrecimento. Por isso, a profecia de Sofonias parte em defesa dos sem terra, sem moradia e sem direitos. Sofonias é o profeta dos pobres da terra. Na leitura do primeiro capítulo do seu livro iremos encontrar a descrição dos grupos opressores e beneficiários de uma política econômica de extorsão. Estes são criticados e condenados pela profecia. A força crítica de Sofonias recai sobre a política econômica, que girava em torno das atividades comerciais e conseqüentemente estava produzindo o enriquecimento e a vida tranqüila das elites. O ouro, a prata, a violência e a fraude determinam a vida nos dias de Sofonias. A elite e os representantes políticos chegaram a "encher a casa de seus senhores de violência e fraude", ou seja, abusaram do poder e aumentaram as relações injustas.
Os dominadores (os "novos ricos" que estavam se adonando das terras e bens do povo através de uma política de favorecimentos e tributos extorsivos) para manter o poder e continuar vivendo no luxo souberam colocar em prática as suas instituições espoliativas, como o comércio, a violência e a ideologia religiosa. Os injustos controlam as finanças, multiplicam as opressões e acumulam riquezas (veja Pr 28-29); também andam espiando, armando laços para os pobres, prendendo os homens, enchendo as suas casas de engano e não julgando a causa dos órfãos e o direito dos necessitados (veja Jeremias 5,26-28). Vale salientar que nos dias de Sofonias aqueles que seguiam as regras ditadas pela política econômica assíria (uma espécie de política tributarista imperial) se apresentam vivendo tranqüilos mesmo diante dos boicotes e quebra das alianças de exportação e importação.
Hoje mudou algo? Estamos tendo a rara oportunidade de ver às claras, com que FHC, seus ministros e os líderes políticos da Câmara e do Congresso (a base governista) estão efetivamente preocupados: não com a fome, desemprego, miséria, violência e outros tantos problemas sociais, mas em se manter no poder (continuar dominando e explorando, já pensando em 2002) e viver tranqüilos em berço esplêndido. Oxalá possamos ter a força da palavra profética de Sofonias para anunciar o dia de Javé como fim dos dominadores e de suas instituições. Que possamos com a resistência dos sem-terra, dos camponeses e camponesas e das maiorias oprimidas decretar o fim e derrocada do governo neoliberal de FHC e dos deputados e senadores que legislam para si mesmos.
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POR:
Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais,
assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração
(abelha@cidadanet.org.br)
Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião,
assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP
(rafaeli@cidadanet.org.br) |