Era o fim. Exaustos, desfalecidas, sem esperança. O combate durara meses. Durante esse tempo enfrentaram metade do exército nacional. Sofreram com a fome, com algumas deserções, com o cerco. Agora não era mais possível continuar. A cidade já estava pegando fogo. As casinholas praticamente destruídas, aguardando apenas o golpe de misericórdia.
Eis que, de repente, no meio da desolação e das ruínas, uma bandeira branca. Entre os escombros, alguém busca a conversa. Embora tivesse resistido bravamente, causando inúmeras baixas do lado inimigo, aquela gente julgou que a vitória seria impossível. Decidiram então buscar a negociação. O líder teve quem gravasse suas palavras, dirigidas ao comandante das tropas oficiais: "Eu nunca matei ninguém, por isso é que me entreguei e pedi para vir a presença de v. Ex., por que sei que é homem civilizado e que sabe falar. Eu venho dizer a v. Ex. que acabe com essa guerra, porque nós estamos vencidos; aí dentro não tem mais gente pra brigar com vmces., por isso eu venho pedir pra mandar os seus soldados abrirem o cerco pra nós ir pras nossas casas e vmces. irem pras suas, porque nós estamos aí dentro como bode no curral. Há três dias que não se dorme; está tudo metido em buracos e os meninos só vivem gritando porque estão todos com fome e sede..." A fala continua, apelando à generosidade e aos mais altos valores humanos.
Os chefes se reúnem a sós. E a decisão tomada, e comunicada, foi expressa pelo negociador da seguinte forma: que o general o havia encarregado de convencer aos seus companheiros que deviam se entregar com suas famílias, pois cá teriam casa, comida e tudo quanto precisassem.
A gente rebelada confiou. Vieram para se entregar mulheres, crianças, antigos combatentes. Em foto que ficou célebre, aparecem exauridas, esquálidos, impotentes. Esperavam apenas conservar a vida. Quem sabe, já que no arraial ela se tornava impossível, fosse possível tentar em outro lugar...
Mas não. Beatinho e todas aquelas pessoas que o acompanharam e 02/10/1897, confiados nas palavras do militar, sem exceção de um só, foram friamente degolados. A palavra não valeu de nada. Ou melhor, serviu para a dissimulação, para a covardia, para o golpe sujo. De que artifícios os militares não se serviriam para alcançar seus objetivos, incluindo a falsa generosidade e a aparente compaixão?...
Não foi possível não recordar este momento dramático da guerra de Canudos, ocorrido ha mais de cem anos, mas que pareceu repetir-se agora, no calor da hora da dissimulação governamental para desalojar maltrapilhos sem-terra das terras sagradas e intocáveis da excia. de hoje, em 24/03/2002. Nada foi evitado: a promessa falsa, a garantia oca, a certeza mentirosa. Os sem-terra saíram. Mas o acordado não foi realizado. A palavra dada de que não haveria prisões foi debochadamente negada. As lideranças foram para a cadeia, e agora são criminosos, bandidos contumazes, facínoras, da mesma forma que os habitantes de Canudos foram qualificados e, assim, tiveram seu massacre justificado na consciência nacional.
Pessoas do próprio governo reclamam pelo não-cumprimento do acertado, colocando inclusive seus cargos à disposição, como no passado até Rui Barbosa chegou a esboçar um protesto pela forma cruel com que os canudenses foram tratados (num discurso afinal não-pronunciado).
A história se repete. O pseudo-ministro da pseudo-reforma-agrária garante que o movimento é político, tem a ver com as eleições do fim do ano. Como se isso justificasse a quebra da palavra, a traição, a covardia, a arbitrariedade. Da mesma forma que os canudenses foram acusados o tempo todo de tramarem a volta da monarquia, e porem sob ameaça os poderes constituídos. Até jaguncinho e jaguncinha apareceram lá e cá: há cem anos na forma de crianças abandonadas, seqüestradas de seus pais e mães e levadas para Deus sabe onde; agora na forma de uma menina que, não tendo para onde ir, foi com o pai para a cadeia, já desde cedo o que o país reserva a quem não nasceu em berço esplêndido nem tem poder para reverter a situação em seu próprio favor. Mas são sementes de um futuro teimoso, que tem de chegar.
E assim como no passado Machado de Assis, também nos passado cabe dizer: "o que nos ficará depois da vitória da lei?" Os sem-terra vão para a cadeia, e daí? Acabará o problema fundiário no país? Não é revoltante ver a presteza com que o poder age para defender os interesses de seus próprios titulares enquanto as soluções para as demandas do povo ficam para último plano?
Na verdade, Canudos é a imagem em miniatura do Brasil. De ontem e de hoje. De um hoje que teima em repetir e perpetuar as práticas de ontem. Os oito anos propalados por toda imprensa o dinheiro de nossos impostos são mais, muito mais. Pelo menos cem. Provavelmente quinhentos.
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