O IMPÉRIO DO TERROR

Nestes últimos tempos, aliás, com ares apocalípticos, temos assistido a uma avalanche de terrorismos. De um lado, os bons mocinhos e, do outro, os diabinhos. Uma perseguição implacável que para alcançar Osama bin Laden mata centenas de afegãos. Mas em meio a toda esta onda de "justiça infinita" e "radicalismos", o grande terrorista é o governo dos EUA e os seus aliados. Cordeirinhos e lobos na mesma pele, diria o livro de Henoc (livro da literatura apocalíptica judaica escrito por volta dos anos 150 a.E.C). Se nas reflexões anteriores analisamos este momento de crise e turbulência à luz da profecia do VIII século (Amós e os oráculos contra as nações) e no livro do Apocalipse (Ap 18-19), aqui tentaremos perceber o que a profecia tem a dizer das ações assassinas dos impérios.

Estes começaram a determinar a vida em Israel e Judá por volta dos anos 740 a.E.C. O primeiro império a invadir e arrasar militarmente o Estado de Israel foi o império assírio. Contra o império assírio e as suas ações terroristas encontramos eco nas profecias, de modo especial em Isaías e Sofonias. A profecia de Isaías acontece em meio à guerra siro-efraimita (734-732 a.E.C.). Guerra, aliás provocada por uma tentativa de coalizão anti-assíria. Não é à toa que diante de uma invasão militar e da apresentação prepotente dos assírios (neste momento liderados por reis com grande projeto expansionista) a profecia de Isaías nos apresente duas caracterizações para a ação dos assírios um tanto quanto curiosas. Em Is 5,27-30 encontramos uma descrição dos exércitos assírios: "No meio dele, ninguém se cansa, ninguém tropeça; ninguém tem sono, ninguém cochila; ninguém desaperta o cinturão, ninguém desamarra a correia das sandálias. Suas flechas estão afiadas e todos os arcos bem esticados; os cascos de seus cavalos parecem de pedra, e as rodas dos seus carros são como furacão. Seu rugido é como o da leoa; ruge como leão novo: ruge enquanto agarra a sua presa: segura e ninguém a toma dele. Nesse dia, ele vai rugir contra Judá, como o barulho das ondas do mar. Olhe para a terra: tudo é escuridão e angustia, a luz se transformou em trevas por causa das nuvens." Eis como o povo enxerga o exército assírio. Naqueles tempos, a experiência de ter as terras devastadas e destroçadas pelos carros e cavalos era o indicativo de como o povo conhecia e acabava vivendo em pânico. Ações militares eram nos dias de Isaías um grande instrumento do terrorismo imperialista.

Em Is 8,7-8 a ação do império assírio é comparada a uma grande devastação provocada pelas águas. O terror praticado pelo império é um verdadeiro dilúvio. "O Senhor vai trazer para ele as águas torrenciais e impetuosas do rio Eufrates, o rei da Assíria com toda sua força: elas enchem o leito, transbordam por todas as margens, invadem Judá, o inundam e lhe sobem até o pescoço. Suas asas abertas cobrirão toda a extensão da sua terra, ó Deus-conosco!."

Nesta perspectiva o desejo da profecia de Sofonias é que Javé possa estender a sua mão contra o norte e exterminar completamente o império. Que o império econômico-terrorista seja um lugar arrasado. E todos que passarem por lá dirão: "Essa é a cidade alegre, que vivia em segurança, que dizia para si mesma: ‘Eu, e ninguém mais!' Agora se tornou lugar abandonado, esconderijo de animais. Todos os que passam perto dela, assobiam e agitam a mão" (Sf 2,15).

Alguns anos adiante, a profecia de Jeremias descreve a desgraça que vem do norte. O império assassino destruíra a cidade (de fato os assírios devastaram Israel entre os anos 732 e 722 a.E.C e invadiram Judá em 701 a.E.C.; seguindo os mesmos instrumentos de devastação, exploração e deportação, os babilônios destruíram Judá e Jerusalém entre os anos 597 e 587 a.E.C.) e deixou o povo perdido e sem força. A profecia descreve a situação da terra: "Olhei para a terra: estava sem forma e vazia. Olhei para o céu, e não havia luz" (Jr 4,23).

Quais as imagens do Afeganistão após cada ataque dos EUA e dos seus aliados? Praticamente fomos invadidos com as constantes imagens do ataque às torres de Nova Iorque e até agora não recebemos nenhuma imagem das mortes, das destruições e das devastações produzidas pelos ataques terroristas dos Estados Unidos e aliados.

Que os profetas, os santos e as santas e o sangue dos mártires nos livrem do terror do imperialismo e não deixem os poderosos jamais dormir em paz.

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)