ORÁCULOS CONTRA AS NAÇÕES

Nestes últimos dias assistimos ora incomodados, ora impassíveis aos ataques dos EUA e dos seus aliados ao Afeganistão sob a bandeira de combate e guerra contra o terrorismo. O acontecimento do dia 11 de setembro de 2001 e os ataques que começaram no dia 07 de outubro não estão isolados de outros tantos que abalaram e abalam o mundo. Interessante notar que os Estados Unidos conseguiu chamar a atenção e apoio de muitos países para as suas atrocidades e dominações. O mundo se sensibiliza pelo poder dos Estados Unidos e pelas vítimas do ataque "terrorista" e não se sensibilizou com as vítimas de Vietnã, Hiroshima, Nakazaki, Guatemala, Chile, Iraque... Grande contradição! Para o presidente Bush a guerra contra o terrorismo se torna um grande marco para a retomada de ganhos políticos. Parece que os ataques do dia 11 foram aproveitados politicamente para tentar resgatar o prestigio político, além de abafar qualquer informação sobre vítimas e fracassos. Os ataques quase que orquestrados demonstram uma cena teatral de júbilo e glórias. Eis "o teatro do Bem e o Mal"! (como argumentou Eduardo Galeano). Atacam e matam com a mesma moeda. E o mundo não se sensibilizará com os mortos e vítimas dos ataques bestiais de Bush e dos seus aliados.

Jogo de forças e de poder. De um lado, o poder econômico e destruidor de vidas a matar justificadamente; e do outro, o poder religioso e controlador de vidas, a colocar em risco muitas vidas em nome de Alá. Quais as forças que estão em jogo? Quais as questões que estão por baixo deste confronto destruidor?

Para Bush e companhia buscar o bode expiatório nas lideranças afegãs e promover um controle no mundo árabe, implica intencionalmente na busca de controle econômico. As questões em jogo vão para além da etnia e da religião, pois o alvo é o controle das riquezas petrolíficas (este embate já acompanhamos nos ataques a Sadam Hussein e na guerra de Kosovo). A bandeira para o controle econômico é a luta contra o terrorismo. Alguns anos atrás a bandeira de controle do capital se restringia à luta ferrenha contra o socialismo (comunismo), agora sob a luta contra o terrorismo querem controlar o petróleo. Aliás, não só o petróleo é a tendência deste controle sob a bandeira de guerra contra o terror; as riquezas hidrográficas correm sério perigo. Isto já vem sendo anunciado, quando se oferecem para combater a guerrilha na Colômbia e nestes dias de guerra avisam para o Brasil se cuidar que terroristas tem abrigo em nosso país. Puro pretexto e máscara para as reais intenções de controle das riquezas minerais em nosso país.

A guerra anunciada contra o terrorismo por Bush e os países cordeirinhos (os países que apóiam e estão amarrados pelo controle econômico do capital) repete os erros assassinos, as ações macabras e as atrocidades promovidas pelos conquistadores e colonizadores de muitos séculos atrás. Se no mundo antigo uma nação guerreava contra outra com o objetivo de saquear a produção agrícola e estampava a bandeira da famosa luta dos deuses. Hoje, esta guerra tem como objetivo o controle não de um país, mas de uma região e levanta-se a bandeira da luta do capital contra os fundamentalistas. Eis uma luta bestial. Eis uma guerra que não trará bons frutos para o mundo. E aumentará o ódio contra o capital, contra os EUA e seus aliados. E poderão aumentar, crescer e se multiplicar poderosamente os revoltosos.

O que nos diriam os profetas? É o momento de ler atentamente a crítica que a profecia em Israel e Judá (nos séculos VIII a VI a.E.C.) elabora contra o imperialismo. Vamos nas pegadas das profecias de Amós, Sofonias e Jeremias. Nesta primeira reflexão perceberemos a análise e crítica contra as nações no VIII século. Vamos ler Amós 1,3–2,16. Estes oráculos (1,3-5 + 1,6-8; 1,13-15 + 2,1-3 e 2,6-9.13-16) obedecem ao trajeto das rotas comerciais. No primeiro par de oráculos encontramos a crítica a Damasco, Gaza e demais cidades filistéias; já no segundo par (Amon e Moabe) a crítica recai sobre a rota comercial transjordaniana e no centro destas rotas situa-se Israel que esmaga, oprime e tritura os pobres. O oráculo contra as nações na profecia de Amós lança uma forte crítica à política de guerra dos povos vizinhos (1,3.6.13; 2,1) e o seu principal agente: o exército. A profecia de Amós não morre de amores pelos soldados. As forças militares não trazem o bem para o povo. Basta ver os crimes de guerra denunciados por Amós: massacre da população civil de Gileade (1,3); deportação de populações derrotadas (1,6); chacina de mulheres grávidas (1,13); sacrilégio de cadáver (2,1). Porém, o grande alvo da denúncia profética esteja na opressão exercida pelos interesses econômicos da elite, da casa real e das forças militares. Amós grita contra o escandaloso esmagamento dos pobres: "...vendem o justo por dinheiro e o necessitado por um par de sandálias; pisoteiam os fracos no chão e desviam os pobres do bom caminho! Pai e filho dormem com a mesma mulher, profanando assim o meu nome santo. Diante de todos os altares eles se deitam sobre roupas penhoradas e no templo do seu deus bebem o vinho de juros" (2,6-8). Quem são os culpados pela opressão dos pobres? Amós tece a listagem dos culpados e ameaçados: militares, juízes, comerciantes, sacerdotes, senhores de escravos e escravas. Neste conjunto de culpados, o aparato militar te é o que viabiliza e dá cobertura para os espoliadores e assassinos e garante o ganho econômico dos citadinos.

Que oráculo a Profecia de Amós lançaria para este momento? O que falaria da política de Bush e dos seus aliados cordeirinhos? O que diria do ataque às torres e ao Pentágono? O que diria da sacana ação dos EUA que com um avião lança mísseis e com outro joga alimentos? Dois capítulos não seriam suficientes para criticar tamanhas barbaridades.

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)