PARA QUE TODOS TENHA VIDA

Todos conhecemos aquela frase do evangelho da comunidade joanina, que virou refrão: "Eu vim para que todos tenham vida, que todos tenham vida plenamente"(Jo 10,10). Nisto podemos resumir o sentido da presença de Jesus, de acordo com a comunidade joanina. Aliás, o evangelho é escrito para garantir a certeza da vida para quem é fiel a Jesus e se envolve com a comunidade (Jo 20,31).

Mas não deixa de ser intrigante. A comunidade joanina, por causa de sua fé, pelo fato de seguir alguém que foi crucificado e humilhado, é sujeita às mesmas humilhações e perseguições (Jo 15,18-20). É excluída da vida da sinagoga, a entidade que garante direitos e reconhecimento na sociedade (Jo 9,22; 12,42). Vive a ameaça da morte (Jo 16,2). O que significa neste contexto ter a certeza da vida? Não seria isso uma brincadeira de mau gosto?

A experiência e a memória de nossos mártires latino-americanos pode nos ajudar. Eles foram mortos porque lutaram pela vida, e não "entregaram os pontos" diante das ameaças e da violência. Santo Dias, Margarida Alves, Josimo, Dorcelina... Mesmo diante da morte que rondava suas vidas não temeram em apostar na vida plena para seus irmãos e irmãs, na luta pela terra, na organização política. A vida não é apenas a sucessão de minutos, horas, dias, meses e anos, mas é principalmente um sentido, um esforço para dar à existência uma direção e um significado digno, e isso não apenas para alguns. Nisto apostaram nossos mártires, nisso apostou a comunidade joanina. Ela percebeu que Jesus tinha agido da mesma forma. Diante da morte, não fugiu dela, mas proclamou: "Eu venci o mundo" (Jo 16,33).

Estas linhas foram extraídas de nosso livro Fé em Deus, fé na vida: a Boa Notícia segundo uma comunidade na periferia do mundo (Centro de Estudos Bíblicos, São Leopoldo, 1999, p.88-89), que teve ainda a participação de Maria Paula Rodrigues. Nele nos propomos a abordar o evangelho segundo João levando em conta o contexto em que ele surgiu, a experiência da comunidade e o sentido que o texto assumiu para ela. Com isso vamos de encontro à proposta da igreja católica, que sugere a seus membros a leitura e reflexão do quarto evangelho. Mas nos importa que este evangelho seja considerado a partir das experiências que o originaram, e não seja lido, como costumeiramente tem ocorrido, numa perspectiva desligada das questões vitais das pessoas, como se a espiritualidade cristã pudesse ignorar o corpo, o cotidiano, os conflitos de cunho social, político e religioso. O evangelho foi escrito para que "vocês acreditem... e tenham vida..." (Jo 20,31). Em oportunidades próximas trataremos de abordar facetas do evangelho que mostrem a caminhada da comunidade joanina, seus desafios e esperanças.

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)