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Nesta semana celebramos a Páscoa, festa da libertação dos hebreus e memorial da luta e projeto de Jesus de Nazaré em meio à festa dos 500 anos de "descobrimento", ou melhor, festa da "invasão" do Brasil. Vamos refletir a partir desta "coincidência" de comemorações.
Vamos começar pela festa da Páscoa. Noutras reflexões já falamos da origem e importância da festa da Páscoa. Hoje gostaríamos de mostrar a festa da Páscoa como um grande compromisso de transformação da realidade e de promoção da vida. Eis uma festa da fertilidade. Fertiliza a vida e a luta. Eis uma festa que não exclui e marginaliza. Na tradição de Israel a Páscoa é uma festa-memória, pois ao mesmo tempo celebra e faz lembrança. A lembrança do passado e das tradições faz olhar para a realidade. Daí aparece a grande exigência da festa: o compromisso por transformar a realidade. Por isso no livro do êxodo se diz que esta festa tem que ser festa perpétua (Ex 12,3-17), simplesmente porque a luta pela libertação, pela dignidade e pela vida tem que ser vista como um processo e como uma caminhada. Os grupos de Israel que refletiram a Páscoa como um decreto perpétuo, simplesmente analisaram a história e o seu cotidiano querendo dizer para as gerações futuras que a libertação estará garantida se permanecer na memória e nas lembranças do povo. Por isso a festa é um memorial. É preciso continuar lutando!
Na tradição das comunidades cristãs a festa da Páscoa enquanto memória e compromisso estará relacionada com a morte e ressurreição de Jesus. Morte e enfrentamento. Compromisso de luta em favor das grupos excluídos pelo domínio romano. A Páscoa para as primeiras comunidades era celebrada com o intuito de nunca perder o rumo e as perspectivas da luta. "Fazei isto em memória de mim!" é a ordem promulgada por Jesus para os seus seguidores e seguidoras. Memória da cruz, do enfrentamento, do compromisso e da vitória sobre os projetos de morte.
Para celebrarmos a Páscoa como festa de compromisso e memória devemos estar longe dos triunfalismos e do esvaziamento da festa pelas ideologias que negam o compromisso, a luta, a opção pelos marginalizados e o processo de libertação.
E como ficam as comemorações dos 500 anos? Celebrar o que? Nestes últimos dias estamos presenciando muita euforia ao redor da invenção do Brasil. Comemorações tão triunfalistas e carregadas de uma forte ideologia que apaga a memória e lembrança dos excluídos. Aliás, as comemorações triunfalistas dos 500 anos desviaram toda a atenção do povo. Assim, cai no esquecimento a corrupção de Pitta e comparsas, o processo crescente de desemprego e exclusão social, dívidas e a venda do país aos interesses internacionais promovidos pelo governo F.H.C. As vozes dos povos indígenas, protestando contra a comemoração de cinco séculos de genocídios contra eles não encontram eco. A insistência em ocultar a barbárie e os massacres passados certamente serve para encobrir exclusões presentes e futuras. Daí o caráter oficial e solene que as comemorações vêm recebendo. O Brasil só vale a partir de seu ingresso, via porões, navios negreiros, expropriações de todo tipo, no mundo globalizado. A Globo tem a desfaçatez de dizer que a carta de Pero Vaz de Caminha é a certidão de nascimento do Brasil! Tamanha imbecilidade só pode estar a serviço de interesses perversos, negadores da humanidade a quem não seja o conquistador, o destruidor da Mata Atlântica, o expropriador das riquezas, o genocida.
Neste contexto, o que ainda a Páscoa vitoriosa de Jesus de Nazaré, atualização daquela dos hebreus, consegue dizer a quem acredita e aposta em outros 500, de inclusão, de justiça, de respeito ao meio ambiente?
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POR:
Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração
(abelha@cidadanet.org.br)
Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP
(rafaeli@cidadanet.org.br)
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