PASTORAL VOCACIONAL E PASTORAL DA JUVENTUDE
A partir da realidade dos países europeus, onde há falta de vocações e a juventude está ausente na Igreja, Jorge Boran faz um alerta aos animadores vocacionais latino-americanos.

Nesta edição a revista Rogate traz um extrato do trabalho apresentado pelo Pe. Jorge Boran, CSSp, durante o encontro de especialistas em Pastoral Vocacional e Pastoral da Juventude, realizado de 10 a 13 de março deste ano em Buenos Aires (Argentina). Promovido pelo Departamento de Vocações e Ministérios da Conferência Episcopal Latino-americana (DEVYM-CELAM), o encontro contou com a presença de 15 especialistas de oito países (Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, México, Paraguai, Porto Rico e Uruguai). Em sua apresentação, Pe. Boran analisou o impacto das culturas pré-moderna, moderna e pós-moderna e, simultaneamente, apontou fatores que influenciam a Pastoral Vocacional. A revista Rogate, com autorização do autor, dá especial destaque às conclusões abordadas no trabalho e que nos trazem questões importantes a serem debatidas pelas equipes de animação vocacional e de jovens.
Será que nosso destino é o mesmo da Igreja da Europa?

Em quase todos os países da Europa, cada vez mais, as pessoas mantém poucos vínculos com a Igreja. Buscam-na para momentos mais intensos da vida humana, como, por exemplo, o batismo, o casamento, a morte. É uma atitude de ateísmo prático. Às vezes professa fé em Deus, mas na vida prática, atua como se Deus não existisse. Mantém alguns vínculos com a religião organizada porque, caso Deus exista, não quer ficar do lado errado dele. O escritor colombiano Gabriel Garcia Marques repara: "Não creio em Deus, porém, tenho medo dele." Este tipo de ateísmo é muito mais perigoso para a fé dos jovens do que o ateísmo formal (pessoa que se assume enquanto ateu). O ateísmo prático é o inimigo que ameaça o futuro da fé dos jovens.
Penso que nos países desenvolvidos o agravamento da descrença dos jovens, de maneira especial na Europa, pode iluminar o caminho que trilhamos em direção ao futuro na América Latina. Podemos aprender com o que está acontecendo nos países desenvolvidos, antecipar as mudanças culturais que provocam a falta de fé dos jovens e evitar os erros cometidos.
Há o problema da diminuição alarmante das vocações religiosas. Também a juventude, de modo geral, está abandonando a Igreja. São poucos os jovens que participam da missa dominical. Claro que não podemos reduzir o cristianismo ao ritual e à freqüência das celebrações, mas, por outro lado, não podemos ignorar sua importância. A participação na celebração litúrgica desempenha um papel importante na vida dos cristãos. É um momento privilegiado para tornar explícita a fé, momento de encontro com outras pessoas e de compartilhar a vida. A opção de não participar da missa está freqüentemente acompanhada pelo abandono de outros aspectos visíveis da fé. Para os jovens o abandono da Igreja pode significar também o abandono de um quadro de referência espiritual e ético.

Estudiosos alertam que são suficientes duas gerações para que as pessoas percam todo contato com o cristianismo. Se a primeira geração não pratica a religião e não educa seus filhos na fé, a segunda não terá nenhuma referência da fé cristã. Alguns podem até retornar por motivos culturais, para participar de um casamento ou missa.

Nas paróquias das grandes cidades da América Latina chama à atenção a ausência de jovens nas missas. Em alguns bairros de classe média a ausência é alarmante - quase 99%. Muitos destes jovens perderam os vínculos com a Igreja católica. Antes estes jovens continuavam mantendo uma certa identidade católica em virtude das estruturas de apoio de uma cultura católica. Hoje, na medida em que avança a cultura moderna e a cultura pós-moderna, impulsionadas pelos meios de comunicação e o ambiente de progresso das grandes cidades, desaparece a cultura católica e suas estruturas de apoio. Pode acontecer o que está ocorrendo na Europa: a primeira geração não pratica a religião nem educa os filhos na fé, por conseqüência a segunda não tem referências da fé cristã.
Nasci na Irlanda, porém tenho passado a maior parte da vida na América Latina. Portanto, estou em uma posição privilegiada para fazer uma comparação entre os dois mundos. Há uma questão importante que necessitamos estudar referente à falta de fé juvenil: será que nosso destino é o mesmo da Igreja da Europa?
Quero dar um exemplo, que é típico de outros países da Europa. Na Irlanda, em torno de 1960, surgia o maior número de vocações religiosas no mundo, em proporção à sua população. O país enviava missionários para todos os continentes. Perto de 99% dos irlandeses participavam da missa dominical. Após 20 anos, a crise estava presente, e com muita força. Senti esta crise de perto.

Quando criança estudei em uma escola de religiosas. Hoje a escola foi entregue ao Estado por falta de vocações. Quando jovem estudei em um colégio de religiosos, de uma congregação que era responsável por quase 100 escolas. Agora quase todas as escolas foram repassadas para leigos. Há anos que as duas congregações não recebem mais vocacionados. Ingressei em uma congregação missionária que tinha em média 25 ordenações por ano. No seminário maior éramos 250 seminaristas. Atualmente não há mais ordenações. As outras congregações tiveram o mesmo caminho.
Em torno do ano 1950, na diocese de Ossory, onde nasci, havia tantos vocacionados que o bispo fechou o seminário durante 10 anos para reduzir o número de candidatos. Hoje o seminário está fechado, não por excesso de vocacionados, e sim por falta deles. Também não há perspectivas de futuras ordenações. Ao mesmo tempo, são poucos os jovens que participam da missa dominical e mantém vínculos formais com a Igreja.

Creio que há um fato ocorrido na época de 1960 e que pode iluminar as perspectivas para a falta de fé dos jovens da América Latina. Em 1962, o arcebispo John McQuaid, arcebispo de Dublin, solicitou para o sacerdote jesuíta americano, Pe. Biever, realizar uma pesquisa de opinião pública . O resultado mostrou que a grande maioria da população considerava a Igreja católica como a líder natural do povo e como a maior força em favor do bem na Irlanda. O Pe. Biever observou que o país era quase uma teocracia, pois toda legislação importante necessitava ser antes aprovada pelos bispos. Não obstante, os sinais do futuro estavam presentes nos resultados da pesquisa. Infelizmente a Igreja naquela época não soube ver estes sinais dos tempos: a grande maioria de quem considerava a Igreja como a maior força em favor do bem era formada por pessoas com baixo nível escolar. Por outro lado, mais de 83% das pessoas com nível de escolaridade superior não compartilhava desta idéia e criticava a maneira autoritária como a Igreja exercia o seu poder. O modelo autoritário e clerical funcionava bem enquanto a maioria do povo estava com baixo nível de escolaridade. Infelizmente a Igreja não percebeu a necessidade de se preparar para o desafio formulado por Bonhoeffer, o de evangelizar um mundo que estava se tornando adulto e que exigia transparência e dialogo.

A Igreja não foi capaz de ler os sinais dos tempos e de se preparar para dar respostas a uma nova época que estava nascendo. A crise da Igreja da Irlanda acontece num novo contexto de crescimento econômico e alto nível de escolaridade. Mais de 66% dos jovens, atualmente, têm nível de escolaridade superior. Neste novo contexto a Igreja sofre contínuos ataques dos meios de comunicação de massa e da sociedade civil, que a acusa de abuso de poder, de falta de transparência, de abusos sexuais - como pedofilia - e da falta de sincronia com o mundo moderno. Hoje a Igreja perdeu a juventude e parece muito difícil reverter esta situação. Será que na América Latina podemos evitar cair no mesmo erro?

Na América Latina a capacidade da Igreja enfrentar a falta de fé dos jovens vai depender de sua capacidade de ler os sinais dos tempos. Será que nosso modelo atual de evangelização da juventude no continente latino-americano pressupõe uma massa de pessoas sem educação, pobre, residindo no meio rural? Conseguiremos evangelizar os futuros formadores da opinião pública com um modelo de Igreja cada vez mais clerical? Qual é a imagem que a Instituição se apresenta aos jovens? Está sincronizada com o mundo de hoje? Estamos dando respostas às perguntas de outras épocas e que não são as perguntas que os jovens estão fazendo nos dias atuais? Estamos colocando toda nossa fé no futuro da Igreja, baseando-nos em resultados de curto prazo, de quem trabalha com o impacto emocional dos grandes eventos de massa, e abandonando o lento processo de evangelização gradual por etapas, por intermédio de um acompanhamento sistemático, que é pessoal e grupal.

Como evitar as condições que favorecem a falta de fé do jovem no futuro
A pós-modernidade não substitui a modernidade, porém corrige alguns desvios. As duas culturas convivem juntas. Os valores da modernidade continuam sendo importantes para os jovens: a democracia, o diálogo, a busca da felicidade humana, a transparência, os direitos individuais, a liberdade, a justiça, a sexualidade e o direito de igualdade das mulheres. Estes são os valores especialmente dos meios universitários, dos intelectuais e das grandes cidades. No meio universitário o reinado supremo é do método científico. É bom recordar que os jovens universitários, os intelectuais e os profissionais são os formadores da opinião pública. Ignorá-los significa comprometer o futuro da Igreja. É neste segmento que a falta de fé avança com mais velocidade. Muitos universitários estão abertos a uma dimensão espiritual da vida, porém desligada da Igreja institucional.

A imagem que a Igreja projeta na sociedade é muito importante para a evangelização da juventude. Inspirada em Medellín e Puebla, a Igreja da América Latina conta com um grande capital de credibilidade, por causa dos seus gestos proféticos do passado. Ela colocou sua força moral ao lado dos setores marginalizados da sociedade e foi a voz das pessoas sem voz frente aos governos autoritários.

Não obstante, há uma tendência atualmente de retroceder e fortalecer uma Igreja mais clerical e menos profética. Tal tendência pode resultar numa perda de capital moral e o fortalecimento da descrença juvenil. Há indícios que as tendências que começaram na Europa estão se fortalecendo aqui. O trabalho pastoral com jovens encontra dificuldades para atrair jovens da classe media e jovens com bom nível de escolaridade. As vocações que estão sendo atraídos para nossos seminários e conventos nem sempre são as mais idealistas e dinâmicas, com capacidade de dialogar com o novo mundo que nasce. Há também uma debilidade intelectual e cultural que preocupa. Corremos o perigo de perder os futuros dirigentes e formadores da opinião pública.

Talvez a Igreja do futuro conte com a participação de um menor número de pessoas. Mas o importante é que ela seja o fermento na massa que evangeliza, não a partir do poder, porém pelo testemunho e dinamismo de seus membros, de maneira especial dos jovens. Segundo a espiritualidade bíblica, quando somos frágeis somos mais fortes.

Uma experiência:
Na América Latina não estamos apenas começando a enfrentar a descrença dos jovens.. O contexto para evangelizar a juventude hoje é bom. Só que temos que pegar o jeito. Há uma longa caminhada e há muitas experiências bem sucedidas. Para não ficar numa teoria abstrato quero dar um pequeno exemplo. Nos últimos anos, tenho trabalhado com um curso que tem funcionado como ferramenta para renovar e fortalecer o trabalho da Pastoral da Juventude em nível de base e de coordenações mais amplas. Eu me refiro ao Curso de Dinâmica para Líderes (CDL) , que busca integrar elementos da modernidade e da pós-modernidade. No Brasil organizamos anualmente um curso nacional, e ele está sendo reproduzido em muitas dioceses do país e também em outros países.

No ano passado organizamos um curso latino-americano, tendo participado pessoas de 12 países que agora estão reproduzindo o curso nos seus paises. O curso revela elementos deste jeito novo de evangelizar:
o tem efeito multiplicador, ou seja, pode ser reproduzido com facilidade, beneficiando um maior número de pessoas;
o há variedade, diversão e um bom espírito: garantias de êxito;
o os participantes aprendem fazendo, construindo, utilizando os próprios dons e habilidades;
o utiliza método de treinamento que simula a situação real;
o há um segundo nível de formação para as pessoas que são chamadas novamente para trabalhar como facilitadores;
o utiliza técnicas modernas de marketing;
o é um curso básico, sem o qual não se pode dar outros passos.

O CDL é apenas uma experiência em meio a uma grande variedade de experiências pastorais, que abrem portas e janelas para perceber diferentes maneiras de trabalhar a falta de fé do jovem num contexto cultural radicalmente diferente de outras épocas. A criatividade pastoral no Brasil é um dos motivos pela qual a falta de fé não penetrou no segmento da juventude latino-americana com a mesma força como ocorreu nos países da Europa. O caminho para frente exige um trabalho em dois frentes: a evangelização da grande massa de jovens empobrecidos, e, ao mesmo tempo, o de enfrentar o desafio de construir uma Igreja que tenha relevância para uma juventude com nível crescente de escolaridade. Com Bonhoeffer acreditamos que o grande desafio da Igreja é de pegar o jeito de evangelizar um mundo que se tornou adulto.

POR:

Pe. Jorge Boran - Diretor CCJ