PASTORES DE ONTEM E DE HOJE

Está numa metrópole, capital de estado, outrora capital destas terras feitas colônia dos portugueses, hoje quintal dos mandos e desmandos de uma elite oligárquica que teima em reproduzir mecanismos que julgaríamos coisa do passado. Ingenuamente, é claro, porque essa mesma elite manda na atual capital também. Mas vamos ao que importa. Numa das avenidas de acesso e saída da grande cidade, no caminho que leva ao aeroporto, eis um monumento, entre as duas pistas pela qual veículos trafegam rapidamente, o que não impediu a observação surpreendente e reveladora.

Um monumento. E daí? Qual a importância de um único monumento naquela que é uma das cidades com maior patrimônio cultural e artístico do país, de visita obrigatória a quem quer conhecer algumas das expressões mais significativas da cultura aqui produzida neste último meio milênio? Sim, por que se referir a este único monumento, não tombado pelo Patrimônio Histórico, sem qualquer valor do ponto de vista histórico ou artístico?

A menção vale por conta de um único dado: trata-se de um monumento erigido em homenagem a um deputado, precocemente falecido, destinado, porque filho do chefe do clã oligárquico, a ser o próximo governador do sofrido e maravilhoso estado e sua gente. Falecido, o enterro deste deputado fez presidente e comitiva deixarem reis ibéricos falando sozinhos e voltarem apressados para ao acompanhamento do féretro (um dos sinais mais claros de como estão organizadas as relações de poder neste governo). Pouco depois, o ilustre desaparecido (sim, porque há tantos de quem não se fica nem sabendo o nome) tornou-se nome e aeroporto e mereceu a construção de tal monumento, também com direito a visita presidencial para inauguração e confirmação de submissões pouco elogiáveis.

E, o que aqui nos interessa, monumento com direito a guarda, armado, vinte e quatro horas por dia, segundo pudemos apurar, a tomar conta, contribuindo para a perenidade do clã com dinheiro público e para o amortecimento das consciências! Teria a oligarquia deixado lá este guarda, é bom repetir que com dinheiro público, aquele que o homem do dinheiro e de especulações duvidosas gosta de chamar de o meu, o seu, o nosso dinheiro, ele estaria lá por receio de alguma depredação ou manifestação de vandalismo? Muito provavelmente não, cremos. Terá, quem sabe, função muito mais sutil. Enquanto verdadeiras obras primas carecem, na mesma região, de recursos para sua manutenção, e algumas literalmente estão caindo aos pedaços, e a população da terra sofre com as mais absurdas e básicas necessidades não satisfeitas, aquele guarda está lá como símbolo. Sinal poderoso do culto e da submissão. A liturgia pelo morto pereniza o domínio dos vivos, que vem incomodamente de há muito e parece ter gás para se reproduzir, sabem lá Deus e o diabo como. Quem tiver ligados ouvidos e antenas não terá dificuldade de fazer a ficha cair...

Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos, já dizia o profeta Ezequiel; vós vos alimentais com leite, vos vestis de lã e sacrificais as ovelhas mais gordas, mas não apascentais o rebanho (Ez 34,2-3)! Os hábitos de hoje são outros, bem como as vestes (estamos nos trópicos), mas os mecanismos de apropriação do público em favor de interesses privados (o mais das vezes escusos) continuam. E este caso, infelizmente não é o único. Basta abrir as páginas dos jornais; mesmo querendo, eles não têm mais condições de ocultar.

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)

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