Na Semana da Unidade dos Cristãos somos desafiados a buscar novas práticas comunitárias. Na reflexão anterior vimos que a comunidade deve ficar unida para produzir bons frutos. E o que significa não produzir bons frutos? Tomando a leitura da profecia e da sabedoria de Israel e Judá vemos que os profetas, quando utilizam a alegoria da vinha, enfatizam o julgamento e a crítica aos ramos secos, que não produzem frutos e devem ser queimados. Lembramos aqui Is 5,1-7 a videira (casa de Israel e habitantes de Judá) que só produziu choro e injustiças e Ez 15,1-8 que diz que a videira será queimada porque só se praticou a maldade. No cotidiano da comunidade joanina o não produzir bons frutos, juntar os ramos secos, jogar no fogo e queimá-los tem a ver com enfrentamento e conflito com o mundo. A comunidade que produz frutos de justiça e solidariedade sofre a perseguição do mundo. Ou a comunidade produz justiça e é perseguida, ou não produz justiça e vive a paz ("pax") do mundo.
Esta alegoria da videira tem ares da profecia. Principalmente se a lemos levando em conta o discurso acerca dos enfrentamentos e perseguições que a comunidade cristã está sofrendo por causa da palavra, da compreensão messiânica que tem de Jesus e do seguimento ao evangelho e ao projeto de solidariedade e de justiça. Este discurso sobre a perseguição que a comunidade está sofrendo vamos encontrar em Jo 15,18-16,33.
Uma comunidade que constrói novas relações sociais e luta por extirpar os ramos que não produzem frutos na certa será perseguida pelo mundo e expulsa das sinagogas. Pertencer a Jesus é não pertencer ao mundo. E não pertencendo ao mundo a comunidade não se tornará ramo seco e jamais será lançada fora e queimada. O evangelho quer ajudar a comunidade a refletir que o mundo os odeia justamente porque eles e elas não são do mundo e, por isso, podem ter a certeza que foram escolhidos por Jesus. Ao serem escolhidos foram tirados do mundo. O evangelho quer frisar que o ódio e pecado do mundo reside na não aceitação das obras (sinais) realizadas por Jesus. A comunidade ao ser odiada pelo mundo e expulsa das sinagogas entra na clandestinidade do Império. Cristãos que vivem na periferia do mundo. Por isso, o discurso de Jesus pede a comunidade para não se acovardar (16,1) e ter coragem: "... tenham coragem, eu venci o mundo" (16,33).
O grande desafio e questionamento que a alegoria da videira lança para a comunidade consiste: na ruptura que a comunidade deve fazer com a estrutura escravagista e dominadora do Império romana e no fortalecimento da sua fé através da luta política com o mundo.
Quando lemos a alegoria da videira e o comentário que é feito para a vida da comunidade vamos notar uma grande insistência no verbo permanecer (que muitas vezes significa agüentar) e que dá ao texto uma conotação de resistência e de continuar firmes apesar das tempestades e pressões dos opressores e opositores. A comunidade é provocada a permanecer unida à verdadeira videira para dar muito fruto. Como já vimos, o evangelho provoca a comunidade a viver a unidade. Mas, lendo a reflexão e aplicação para a vida da comunidade veremos que a alegoria da videira quer animar a comunidade a resistir e não desistir do caminho que escolheu trilhar. Resistência que se manifesta quando a comunidade permanece unida a Jesus e ao Pai e permanece na prática do amor capaz de romper com a dominação.
A resistência da comunidade joanina passa pelo testemunho que ela tem que dar ao "mundo'". O grande conteúdo deste testemunho está presente na proposta de amor que permite a superação das contradições sociais e o estabelecimento de novas relações entre as pessoas. Resistência que proporcionará à comunidade a verdadeira alegria (15,11; 16,22; 17,13) e a verdadeira paz (14,27); aliás, a verdadeira paz consiste no "estar inteiro", cheio de dignidade. Lutar pela paz e pela alegria implica numa profunda luta contra o processo de exclusão. Resistência que é dirigida pelo testemunho que vem da obediência aos mandamentos e às palavras de Jesus.
Olhando para a caminhada das nossas comunidades e a realidade de extrema violência e opressão, podemos dizer que o apelo da unidade nos provoca a enfrentar a anti-comunidade e o poder (governantes e líderes políticos opressores, violentos, interesseiros e corruptos). Abaixo o governo corrupto! E na luta pela unidade do povo possamos cortar e queimar as práticas do poder de morte no dia-a-dia de nossas comunidades.
|
|
POR:
Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)
Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br) |