No final do século passado, nos inícios da República, aquela que mudou tudo para manter tudo do mesmo jeito, deputados discutiam seriamente se os segmentos pobres da população, ex-escravos, sub-empregados ou desempregados, gente moradora de cortiços não deveriam ser de uma vez classificados como "classes perigosas", perniciosas, malfeitoras em potencial. Diz um documento da época: "as classes pobres [...] são [as] que se designam mais propriamente sob o título de – classes perigosas –". Lima Barreto, alguns anos mais tarde, escreveria a respeito das convicções da polícia: "todo o cidadão de cor há de ser por força um malandro". Expressões eloqüentes, a mostrar o autoritarismo e a violência de uma sociedade que caminhava célere, assim diziam seus governantes e elites, rumo à modernização, vencendo os focos de atraso, etc., etc., etc.
Novembro de 2000: a secretária de educação do estado de São Paulo, instada a se explicar a respeito da queda na qualidade do ensino (como foi possível cair mais ainda?), afirma, para depois ter de se consertar, não porque pensasse diferente, mas porque "pegaria mal", que tal queda é devida à política de inclusão de tantas crianças pobres no seio da escola pública. Fala isso supondo que somos cegos, surdos, que não vemos nem ouvimos falar das filas intermináveis para se conseguir vagas nas escolas, bem como de tanta gente que não a conseguiu. Mas o que importa aqui é que a culpa é dos pobres. Não estivessem eles na escola (ela não disse assim, mas é sé ler com atenção...) e esta seria um primor. (Ao mesmo tempo, em entrevista a uma rádio, um professor da mesma rede pública comandada por tal secretária, diz que sua disciplina, a matemática, estava tendo sua carga horária reduzida à metade, processo semelhante ao que outras disciplinas já sofreram...).
Passou-se um século e os preconceitos não mudaram, sofisticaram-se até, embutidos em grifes de nome chique como globalização, desenvolvimento, estabilidade, etc., etc., etc. Mas para que paciente leitor e leitora não se cansem, vamos à última informação: a dita cuja secretária, comentando um possível remanejamento que estaria sendo feito junto aos funcionários das escolas públicas para irem trabalhar naquelas mais carentes, nas periferias urbanas, afirmou que eles já estavam recebendo um "adicional de periculosidade". Sim, senhor e senhora: de periculosidade. São ou não perigosos os pobres? São ou não são marginais as crianças e jovens de nossas periferias?
Pobres, inevitavelmente perigosos. Perigosos porque marginalizados. Perigosos porque destituídos da cidadania que lhes foi roubada. Perigosos porque se atrevem a tecer alternativas. No tempo da Bíblia não foi diferente. Situações as mais variadas em que as elites violentavam os pobres e os apresentavam como perigo, como atraso, se encontram em muitas de suas páginas. A apocalíptica de Daniel, que estamos considerando nestas últimas semanas, expressa bem o perigo que a gente pobre representa: ela se atreve a sonhar. Ousa tecer alternativas, em que a estátua símbolo do autoritarismo imperial secular rui pela ação de uma pequena pedra (Dn 2). Pretende transformar suas utopias em realidade, o que causa tremores e temores de todo tipo nas elites carrancudas, sempiternamente seguras em seu poder e arrogância. Urge estar atento a manifestações similares que teimam em continuar a aparecer... |
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POR:
Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)
Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br) |