Finalmente, depois de alguns dias em que a jogatina e as negociatas deram o tom, foi aprovado o ridículo valor de 151 reais para o salário mínimo. Este é o valor irreal que vai alimentar alguns milhões de famílias neste país. Impossível não voltar a esse assunto, ainda mais depois que Plínio de Arruda Sampaio, num texto surgido há algumas semanas aqui na Cidadanet, mostrou que o problema do salário mínimo não é de valor, mas coloca a questão do modelo econômico que o tucanato nos está enfiando goela abaixo. Um modelo em que falta dinheiro para tudo, menos para financiar privatizações e banqueiros e pagar juros escorchantes de uma dívida, além de outras coisas que não é necessário ficar aqui mencionando. E desavisados que estamos, pois os meios de comunicação não fazem qualquer questão de nos mostrar os dados, que quanto mais pagamos mais devemos, e que a dívida interna já subiu com este governo mais de cinco vezes, achamos que não há outro jeito; afinal de contas a inflação está sob controle, ao menos é o que unanimemente se diz, embora o bolso de cada um denuncie o contrário. Desemprego? Ah, deixe estar, isso acontece porque no Brasil o trabalhador tem direitos demais: não é isso que a gente é obrigado a escutar a toda hora?
E com quem não quer nada abrimos a Bíblia e nos deparamos com um escândalo, uma exortação que nos deveria deixar de queixo caído, quando não assombrados: "Não tome como penhor as duas mós do moinho, nem mesmo a mó de cima, porque seria o mesmo que penhorar uma vida". O que dirá a nós, gente plugada na Internet e em plenas portas do século XXI? Se o moinho nos parece uma realidade distante, para a gente que vivia no contexto em que este texto foi redigido era elemento vital, indispensável para sobrevivência. Era instrumento de trabalho, caseiro, com que se fazia o pão de cada dia. A antropologia bíblica, por ser teísta, é surpreendentemente materialista, e apresenta o ser humano surgido da terra fértil (Gn 2,7) e encarregado de cultivá-la (Gn 2,15). Por isso, tirar dele o chão é tirar-lhe a vida, é desumanizá-lo.
Já pensaram se FHC tomasse contato com esse texto e o lesse? Já imaginaram se ele se desse conta de que o cristianismo, do qual se aproximou para ganhar as eleições, se baseia numa antropologia, herdada do povo judeu, que coloca o ser humano como necessitado de condições para viver? E que mexer nessas condições significa mexer com a própria vida humana? E que, portanto, sem-terra e sem-televisão não se referem a carências do mesmo tipo, como quisera uma vez propor, cinicamente, o recentemente tornado imortal Roberto Campos? Mas como quem espera do presidente tal consciência vai continuar esperando, vamos adiante nós, e reflitamos sobre a significação desta máxima escandalosamente incisiva. O que indicará ela diante dos conflitos que estamos presenciando, perante todos os esforços governamentais e da imprensa tucanizada em desqualificar o MST? Como avaliar, a partir do texto sagrado, as políticas de desemprego, de salário aviltante, de negação da terra a quem quer e precisa trabalhar nela, de recusa em investir em saúde e educação?
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POR:
Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)
Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br) |