CUIDADO COM AS PROPAGANDAS DOS FALSOS PASTORES

Estamos nesta passagem de milênio e de século vivendo um tempo de incertezas e de crise. Tanto as crises econômicas quanto as de identidade e de afirmação política. Vivemos num mundo invertido, onde valores, crenças, esperanças e identidades são substituídos pela ideologia e imagens impostas pelo opressor. Nestes tempos de advento (vento novo) as esperanças e expectativas messiânicas e apocalípticas podem nos ajudar a vislumbrar caminhos e projetos para sair da crise e vencer os desmandos e imposições dos poderosos.

No livro de Daniel encontramos algumas imagens que descrevem as marcas e desmandos do império dos Ptolomeus e dos Selêucidas e apresentam com perspicácia os sinais de vitória dos oprimidos e das comunidades resistentes. No capítulo 3 o rei constrói uma grande imagem de ouro e ordena que os magistrados, as autoridades e todo o povo venham para a consagração e adoração da imagem do rei. No entanto, alguns homens judeus encarregados da administração não servem aos deuses do rei e nem tampouco adoram a imagem (estátua) erigida pelo rei. O que causa cólera e indignação por parte do rei, pois tem que enfrentar grupos que estão dispostos a desobedecer e não cumprir o edito. A condenação para os opositores e resistentes consiste em ser lançados numa fornalha ardente. A condenação vem acompanhada da doutrina e ideologia dos impérios: "Quem é o Deus que poderá livrá-los de minhas mãos?" (Dn 3,15). Eis a ideologia do rei que fixa o destino de seus súditos e não há deus que possa modificar e transformar os seus projetos e ordens. O rei (imperador) é deus! Porém, o Deus dos jovens judeus, para o espanto do rei, foi capaz de livrá-los. Ocorre o inusitado: as vítimas da ira do rei se tornam heróis. O crematório se transforma no lugar de espanto do ditador. É o fim da ideologia imperial.

O capítulo 4 de Daniel lança para nós a imagem da grande árvore, com suas etapas de crescimento e caída. Esta árvore que chega aos céus representa os poderes imperiais (como podemos ver em Ez 31) que crescem e chegam até tomar conta dos "quatro cantos do mundo" até chegar aos céus. "Esta árvore -império é arrogante, nunca deixa de crescer, cobiça a toda criatura, dá tranqüilidade a bestas e seres humanos e todos estão pendentes de seu crescimento e sombra". A caída desta grande árvore está associada à figura do Vigilante acompanhada da voz dos céus que ordena cortar a árvore, destruir os seus frutos e deixar sob vigilância um restolho.

Estas e outras imagens presentes no livro de Daniel e na apocalíptica não só intentam descrever as imagens do poder, suas artimanhas, seus projetos de morte e de exploração; também têm o alcance de animar as comunidades perseguidas a enfrentar com coragem, força e confiança os inimigos opressores. Para além de tomar o livro de Daniel como um manifesto macabeu (guerrilha que aconteceu entre 164-142 a.E.C.) deveremos lê-lo como encorajamento e busca de forças para resistir e enfrentar os perseguidores. Nesta perspectiva, as imagens apocalípticas de Daniel ganham um teor messiânico e de esperança/expectativa na vitória.

As esperanças-expectativas do povo resistente e opositor aos desmandos dos impérios fazem brotar sonhos e projetos de reconstrução da identidade, do nacionalismo e das antigas tradições tribais. No ambiente de expectativas e buscas nasce um menino. Em Belém? Na Galiléia? As antigas memórias do nascimento de Jesus não estão muito preocupadas com o lugar do nascimento, mas em apontar com clareza o lugar que germina a sua boa notícia: nos arredores do mar da Galiléia. Um ambiente de "revoltados" e "bandidos" na informação pró-imperial de Flávio Josefo, por conseguinte, lugar de oposição, resistência e projetos de transformação. Da Galiléia daqueles tempos começam a surgir e brotar projetos de resistência como o de Pitolau (54 a.E.C.), de Ezequias (47 a.E.C), de Judas, Simão e Atronge (entre 04 a.E.C a 06 E.C) e de tantos camponeses e camponesas na luta por terra, comida, bênção e vida de descanso.

Estas esperanças messiânicas e estes projetos de transformação política e sócio-econômica nos fazem olhar para as antigas profecias de Neferti (Egito): "Veja!, o grande não mais domina a terra...eu mostro a ti a terra em tumulto: o fraco está bem armado, aquele que o cumprimenta foi cumprimentado. Eu agora mostro a ti em cima o que estava em baixo... o mendigo receberá riquezas, o grande (irá roubar) para viver. O pobre irá comer pão, os escravos serão exaltados". Podemos também olhar para as expectativas e projetos de mudança no canto dos Anawim retratado em Lucas 1,46-55: "Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus meu salvador... pois o Todo Poderoso fez grandes coisas em meu favor. Seu nome é santo e sua misericórdia perdura de geração em geração para aqueles que o temem. Agiu com a força de seu braço. Dispersou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias. Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia...".

Também nos fazem olhar para a nossa realidade, principalmente nestes tempos de ad-vento e de natividade. Que projetos estamos construindo? Que expectativas estamos buscando concretizar? Que esperanças estamos fazendo germinar e crescer nos jardins de nossas casas e de nossa convivência comum? Quais os ventos novos que estamos provocando em nossa sociedade? Como está a nossa luta por um mundo mais humano e mais irmão?

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)