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| QUEM TEM OLHOS PARA VER, VEJA! |
No domingo (22/04), o professor Luís Martins, em seu programa "Motivação e sucesso" (aliás, nome de gosto muito duvidoso), veiculado pela Rede Vida, que se apresenta como emissora católica, passou o tempo tentando, por meio de dados, estatísticas as mais variadas, convencer os desavisados telespectadores que o Brasil não é isso que estamos vendo e experimentando: pior distribuição de renda do mundo, violência urbana e rural fora de controle, desemprego, selvageria nas relações de trabalho (chamada por alguns de "modernização") corrupção em todos os campos, insegurança de todo o tipo (inclusive naqueles âmbitos de que o Estado criminosamente vem abrindo mão), crianças abandonadas. Para se contrapor a esta realidade, a que faz rápida alusão, o ilustre professor menciona, entre outros, os importantíssimos dados: somos um dos países onde mais se compram os carros das marcas Ferrari e Jaguar! Alcança algumas centenas de milhares o número de celulares que vêm sendo comprados por aqui a cada mês! E não deixou de citar os órgãos de imprensa internacionais mais afinados com o pensamento neoliberal, todos com rasgados elogios ao desempenho econômico do Brasil. Logo adiante o apresentador se traiu, e duplamente: primeiro dirigindo-se aos empresários, explicitando que a dose de otimismo era endereçada a eles (visto que só podia ser percebida a partir do ponto de vista deles...); e depois tendo de se justificar que não estava ali para defender o governo FHC (os dados que ele apresentava vira-e-mexe se referiam aos últimos cinco ou seis anos).
Deixando de lado a óbvia propaganda governista (ou, mais exatamente, do modelo econômico que este vem enfiando goela abaixo à gente brasileira, desprovida do elementar a ponto de o dado relativo às Ferrari e Jaguar soar ofensa), seria interessante recordar que esse tipo de postura, a de ignorar e ocultar o drama do cotidiano da maioria da população, não é nova; um ministro da Fazenda recentemente foi flagrado confessando que "o que é bom a gente mostra; o que é ruim a gente esconde"; no tempo dos militares e seu "milagre econômico" o presidente Médici reconhecia que "o Brasil ia bem, mas o povo ia mal". Aliás, essa foi a tônica destes quinhentos anos de colonização; como o grande Sérgio Buarque nos mostrou, os europeus viram nestas terras o paraíso, que fizeram frutificar abundantemente pelo recurso ao brutal trabalho escravo. Os números na maioria das vezes foram bons, já a vida do povo... Veja-se por exemplo a condição de vida da maioria da população das Minas Gerais no auge da extração do ouro (século XVIII), da gente trabalhadora, escrava ou não, nas usinas do Nordeste ou nas fazendas de café de São Paulo, ou ainda o estado em que se encontram hoje as periferias das cidades mais ricas...
Os testemunhos bíblicos na maioria dos casos nos indicam uma perspectiva toda particular para a abordagem de uma determinada conjuntura. Israel vivia o auge de seu desenvolvimento econômico e expansionismo territorial sob o governo de Jeroboão II; mas foi pela ótica dos Amós e Oséias e sua gente que ficamos sabendo da fome e da injustiça que se abatiam sobre o povo no tempo do ilustre monarca (se vivessem hoje, os referidos profetas seriam chamados por FHC de "fracassomaníacos"). Uma abordagem triunfalista do Império Romano no primeiro e segundo séculos de nossa era, no topo de sua glória, não teria lugar para Jesus e seus primeiros seguidores a não ser nos porões e cruzes, ou ainda nos depósitos de gente que se tornará alimento das feras. Como esta perspectiva que se depreende dos testemunhos bíblicos se ajustaria a olhares assim tão benevolentes para com realidades destruidoras e impossibilitadoras da vida das maiorias? Quantas famílias famintas serão necessárias para que cresçamos nas estatísticas dos maiores consumidores de Ferrari e celulares? De quanto desmanche da educação e saúde públicas precisaremos para estarmos entre os países com mais internautas? Quantos sem-terra assassinados fabricaremos para chegarmos ao topo dos países importadores de Jaguar? |
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POR:
Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)
Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br) |
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