RESISTIR E LUTAR PARA CONQUISTARMOS TERRA, ÁGUA E PÃO

No dia 26 de agosto, nos acampamentos de Madre Cristina e Nova Canudos e no assentamento Zumbi, pertencentes à cidade de Iaras, aconteceu a 6ª Romaria da Terra do Estado de São Paulo. Os romeiros e romeiras vieram em grandes grupos, de muitos lugares de São Paulo. Muitas bandeiras, muita animação e muito ânimo para caminhar. Eram mais ou menos seis mil participantes pisando no solo molhado pela chuva e sedentos por ver acontecer a Reforma Agrária. Em Romaria celebramos as nossas esperanças, fortalecemos as nossas lutas e fincamos os marcos de nossas conquistas. Celebramos porque acreditamos como em 1990 na primeira Romaria que a Terra é a Mãe de Todos. Celebramos a resistência e luta de nossos irmãos e irmãs indígenas, a exemplo dos hebreus, há muito tempo nos ensina que a Terra pertence aos Deuses da Terra. Celebramos em Romaria a busca de cidadania e da Reforma Agrária e Urbana, como em 1994, dando início a uma longa caminhada por tornar a vida de cada irmão e cada irmã, em vida digna e cidadã. E na caminhada contra a exclusão celebramos em Itapeva e Andradina o projeto capaz de romper as cercas dos latifúndios, Terra Partilhada e Terra Dividida. No ano passado, na Quinta Romaria da caminhada da CPT (Comissão Pastoral da Terra), em Promissão, caminhamos na busca das bem-aventuranças. Deus nos quer felizes e em festa na terra da fertilidade, da justiça e da solidariedade. Celebramos com a chuva e o cheiro da terra. Festa da fartura a denunciar os projetos políticos e econômicos de nosso des-governo.

Em Iaras nos reunimos para caminhar, celebrar e fazer memória das lutas e resistências dos povos da terra para fortalecer as nossas lutas por Terra, Água e Pão. A terra é o espaço sagrado que sustenta a vida, porém foi seqüestrada, roubada e invadida. Faz-se necessário estabelecer a justiça. Ocupar a terra é preciso para quebrar a lógica do mercado e da propriedade. A água, fonte de vida, não pode ser negada, vendida e privatizada. Da terra e da água brotam os frutos que devem estar nas mãos e nas mesas do povo e por isso lutamos pelo fim do sistema e estrutura agrária que concentra terra e água nas mãos de poucos. Comida na mesa, gozo e fertilidade da terra, sinais da terra ocupada, da terra dividida e partilhada.

Dom Maurício, bispo coadjutor de Assis e responsável pela CPT no Estado de São Paulo, abriu a romaria pedindo um minuto de silêncio pela morte de mais um trabalhador e lutador no Pará. Apresentou como motivação para a caminhada de resistência e de luta a narrativa do Êxodo. Um Deus que caminha com o seu povo. Nesta Romaria compartilhamos da história de luta e conquistas do povo que faz a Reforma Agrária acontecer de fato. Marchamos sensíveis e atentos ao que os Deuses e as Deusas foram nos revelando do cotidiano de homens, mulheres e crianças na prática da solidariedade e da partilha do pão.

Na primeira etapa da caminhada celebramos a tradição de luta e resistência dos povos indígenas. Refletimos a luta pela terra e a defesa da Pachamama iluminados pelo Salmo 24: A Javé pertence a terra e tudo o que ela contém, o mundo e os que nele habitam. Ele próprio fundou-a sobre os mares e firmou-a sobre os rios...". Com muito Awerê realizamos uma caminhada de louvação à Mãe-Terra.

Na segunda etapa celebramos as lutas e as resistências dos negros e das negras contra a escravidão e a discriminação. Com muito axé gritamos em defesa da água. Em marcha bebemos a água, fonte de vida e de recuperação de nossas energias. Foi o axé da água. Lemos e refletimos Ezequiel 47,6-12, que nos inspirou a ver para além das secas e das cercas: água livre saciando a sede e animando para a luta. A profecia nos inspirou a sonhar, também incentivados pelas lutas de nossa história (Canudos, quilombos e tantos outros sinais), com um projeto de país onde caiba toda gente, com dignidade e alegria. Junto com o profeta, nós vimos...

Na terceira etapa celebramos os sonhos e projetos das lutas camponesas e populares. Lá partilhamos a palavra e o pão. Resistimos porque o pão é a nossa vida. É assassino quem priva o irmão do seu pão (Eclesiástico 34,18-22).

Na quarta etapa, denunciamos a propaganda enganosa de nosso des-governo, a sua reforma agrária que não passa de propaganda política e projeto de mercantilização da terra e, sobretudo ver que as porteiras dos latifúndios não estão abertas. Lemos o capítulo 5 da Carta de Tiago denunciando a ação dos latifundiários e donos do poder que assassinam e matam o povo. Ouvimos a palavra de Dom Maurício nos congregando a caminhar resistindo e conquistando a terra, pois a conquista e ocupação da terra pelos trabalhadores e trabalhadoras, como nos dias de Josué, Débora e Barac, é o acontecimento mais sagrado na caminhada do povo e nesta romaria da terra. Convidados a olhar para o céu e ver que Deus na sua imensa solidariedade e justiça nos quer filhos da terra. Abrimos a porteira, fincamos a cruz, que é sinal do Deus que caminha conosco, cantamos e agradecemos aos Deuses e Deusas pela Santa Romaria e Ocupação que realizamos.

Voltamos para as nossas casas com a certeza de que cuidar da Pachamama, conquistar a terra e vencer a lógica do poder são como dores do parto que fazem nascer vida nova na terra. Semente a fertilizar os nossos projetos de construção do Reino.

É projeto em construção. Parodiando a parábola de Jesus, dizemos que o Reino é semelhante ao fermento que o povo toma e junta a três medidas de farinha (a farinha da resistência indígena, a farinha da resistência negra e a farinha da resistência camponesa e popular) até que tudo esteja levedado...

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)