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O dia 24 de março deste ano não poderia passar em brancas nuvens. Mas não é praxe em nossos tempos e contextos conservar as memórias do povo ou de quem com ele se identificou. Neste dia em que, assim parece, se consegue dar um golpe duro no que há de mais retrógrado e truculento na política paulista, ou seja, o malufismo, é oportuno recordar a figura de Oscar Romero. Nomeado bispo por conta de um perfil tido como conservador, ajustado portanto ao modelo episcopal hegemônico nos últimos vinte e cinco anos na igreja católica, o arcebispo de San Salvador não demorou a decepcionar as instâncias eclesiásticas que tinham concorrido para sua nomeação, e principalmente se tornou motivo de grande preocupação para os agentes do terror e da morte do povo salvadorenho, apoiados fortemente no financiamento e armamento americanos.
A perspectiva do martírio não tardou a aparecer no horizonte de D. Romero. Profundamente sensibilizado com o assassinato de um de seus sacerdotes, Rutilio Grande, o arcebispo não teme tomar a defesa intrépida e corajosa da sua gente, e com isso se torna porta-voz das denúncias contra o massacre que vem sendo imposto à população. "Se me matarem, ressuscitarei na luta do meu povo", eis a síntese de uma vida truncada pelo impacto de uma bala; por conta desta, o sangue de Romero se mistura ao de Cristo, em nome de quem tomou as atitudes que tomou, falou como falou, viveu como viveu. Isto há exatamente vinte anos atrás.
A memória de Romero, subversiva como ela só, permanece viva por inúmeras comunidades espalhadas por esta América Latina, mormente aquelas cujo testemunho enfrenta os caminhos tortuosos da luta social, que não se contentam com uma presença introvertida, voltada para a sacristia, e muito menos aceitam que a fé cristã seja reduzida a terapias que visam um bem-estar ilusório e egoísta. Nestas comunidades em que o caminho é iluminado pelo trajeto do povo eleito, pelas denúncias dos profetas, pelas práticas libertadoras e cheias de vida de Jesus e das primeiras comunidades seguidoras dele, ali o nome e a memória de D. Oscar são vivas e estimulam olhar para frente, contra toda esperança, "remando contra a corrente", se necessário.
Aliás, a aposta cristã é, por natureza, "andar na contramão". Afinal de contas, nosso mestre maior não é outro senão o crucificado, solidário com seu povo, agente em favor de sua vida e esperança. Recordar D. Oscar Romero, tantos outros mártires desta nossa América Latina há quinhentos anos quintal das potências que se sucedem, remete a Jesus, vítima da violência romana mancomunada com a elite sacerdotal de Jerusalém. E faz pensar no compromisso que de cada cristão e cristã é pedido e nas exigências que se colocam diante de nós, no sentido de que as palavras do Evangelho sejam, efetivamente, vida para todos e todas.
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POR:
Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)
Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br) |