SEMÂNTICA E EXCLUSÃO

Na verdade vivemos num país sem maiores problemas sociais, onde todos têm possibilidades, nada lhes falta, e as aventadas dívidas quanto a direitos fundamentais dos seres humanos inexistem, e só aparecem em algum meio de comunicação ou manifestação de rua por conta da impertinência de alguns desavisados ou burros mesmo. Esta e a sensação que se tem ao se ler, e levar a sério, o artigo que o incansável sr. Roberto Campos fez publicar em sua mais recente coluna dominical na Folha de São Paulo (27/02/2000). Para ele, o problema da exclusão, aquela social, é apenas uma questão semântica que busca encobrir, perversamente, com um termo pesado situações e realidades que a rigor não podem ser classificadas desta maneira. As conseqüências da globalização, como o desemprego, o abandono de populações inteiras, o analfabetismo, não podem ser classificadas como exclusão, porque não suporiam "uma ação deliberada" que "impeça à força que ela (a gente pobre) tenha acesso a bens que todos desejam". Como políticas de exclusão, só o nazismo e o comunismo.

Isso que é um pensamento safado, para utilizar outro termo com que o articulista desanca os que pensam diferentemente. Vamos a fatos: quando o presidente disse, e não pôde desmentir depois, que no Brasil que ele pretendia não cabem todos, é isso indicativo de exclusão ou não? Quando, depois de muitos anos, alguém perde o emprego, por conta da automação das indústrias, e não consegue se realocar, digamos que por conta da idade, estamos ou não diante de uma realidade de exclusão? E se os responsáveis por estas situação não se percebem "culpados" nem atinam para as conseqüências de seus atos, nem por isso a situação deixa de ser menos dramática. Pelo contrário: justamente tal insensibilidade e a falta de ética agravam ainda mais a situação porque se tem a impressão de estar diante não de pessoas, aquelas responsáveis por atos e sistemas de exclusão, mas diante de máquinas de fazer dinheiro e privilégios, para si e os seus.

Que haja questões de semântica, claro que existem. O próprio Roberto Campos, surpreendentemente, menciona o cinismo de executivos que, ao mandarem centenas de trabalhadores para a rua, não reconhecem estar desempregando (ou melhor, excluindo), mas fazendo "engenharia de reemprego", ou diríamos, "modernização da empresa".

E a Bíblia? Nela também encontramos, particularmente nos profetas, expressões indignadas contra cinismo, irresponsabilidade e insensibilidade tais, que já então se encobriam por palavras ou ideologias, estas por vezes de cunho religioso. Vamos a Miquéias. No último oráculo do capítulo 3 (v. 9-12) o profeta afronta aqueles que "construíram Sião com sangue e Jerusalém com injustiça". Talvez o profeta esteja se referindo às construções ordenadas pelo rei Ezequias, inclusive um ousado túnel por debaixo dos muros de Jerusalém (2 Cr 32,30). Mas estes agentes do sangue e da injustiça têm a seu serviço sacerdotes, ministros e profetas, que lhes deviam garantir, pela via da semântica, consolos e confortos para suas ações, que nem por isso deixam de ser agressivas e violentas. E podem dizer: "Javé está do nosso lado, nada de mal nos pode acontecer"!

Mas Roberto Campos não está sozinho, e nem apenas junto com FHC. Depois que Gilberto Freyre pôde dizer que no Brasil a relação entre casa-grande e senzala foi de confraternização, democratização e correção de distâncias sociais, tudo é possível no campo da semântica...

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)