TEMPOS DE MUDANÇA

Estamos vivendo no Brasil e no mundo tempos de mudanças! Tempos messiânicos. Aproxima-se a tão badalada virada do milênio e do século. Estamos entrando nos tempos do advento e do Natal: ventos novos. Mas também é tempo da entrada de novos governantes ou a confirmação no comando dos municípios dos bons governantes. Nesta perspectiva queremos retomar as nossas reflexões acerca do messianismo e dos projetos de construção de uma nova sociedade. Vamos pensar nas luzes, nos sonhos e nos projetos de mudança política que a sabedoria e a profecia nos oferece rumo à construção de uma sociedade mais humana, fraterna, solidária e política.

Ler e perceber o Messianismo na história do povo de Israel e na caminhada das comunidades seguidoras de Jesus de Nazaré implica buscar constantemente a construção de um projeto de sociedade igualitária, digna e com amplo respeito e defesa da vida. Hoje, no profundo abismo entre a riqueza de poucos e a pobreza de muitos, urge buscar alternativas e projetos de transformação política. Nesta perspectiva gostaríamos de abrir estas reflexões pensando na expectativa de mudanças provocadas pela apocalíptica do livro de Daniel. Eis um livro de cunho político-profético e sapiencial que ousa imaginar, sonhar, ironizar e projetar uma sociedade diferente.

Os dias e a conjuntura que determinam a visão e a leitura dos grupos que elaboram o livro de Daniel são de extrema violência, invasão cultural e de projetos político-econômicos que aos poucos foram destroçando a vida do povo. Um ambiente que não apontava muitas perspectivas, pois ou se abraçava a ideologia e as regras impostas pelo império opressor; ou entrava no jogo político de corrupção que se estabelecia a partir das benesses advindas de uma política de subserviência. No entanto, os grupos empobrecidos e massacrados por este sistema e modelo político de sociedade opressora e corrupta ousaram enfrentar e projetar os seus sonhos e projetos de mudança. Apontaram um vento novo.

O livro de Daniel está inserido no contexto dos anos 200 a 164 a.C. Anos difíceis e terríveis! Há uma forte perseguição e um projeto político-econômico que busca mais e mais abafar qualquer alternativa. O império não só domina econômica e politicamente o povo, mas mata qualquer possibilidade de sonhar. O livro de Daniel e outros dentro desta literatura elaboram seu caminho de resistência, lutas e utopias. É o que podemos perceber numa leitura atenta do capítulo 2, que narra o sonho do rei e o seu projeto político de engrandecimento e superioridade. A narração deste sonho vem acompanhada de um projeto político de medo e de desmesurada violência. No entanto os grupos que apresentam os seus projetos de resistência e de esperança apostam na arte de sonhar e construir um projeto diferente de sociedade. No sonho há espaço para celebrar e contar a vitória. Sonho e projeto alternativo que brotam da ação da pedra sem mão (poder), da vinda do Filho do Homem e da vitória dos Santos do Altíssimo (no capítulo 7). Sonho que brota da derrocada dos impérios. Sonhos que brotam das lutas destes grupos por independência política, econômica e religiosa. Sonhos que o império não conseguiu apagar.

As visões apocalípticas do livro de Daniel apresentam em primeiro lugar Deus no comando dos acontecimentos históricos, julgando os governantes opressores; restaurando o povo que agora está sofrendo perseguição e vingando os que foram martirizados pela fé. No sonho da grande estátua se apresenta a oposição e o projeto de mudança: a estátua tem pés de barro e de ferro e, por isso, representa um reino dividido, pois o império ou os generais que agora estão no comando são frágeis e divididos entre si. A grande imagem de um novo projeto político consiste na pedra que foi lançada sem mão ("sem poder") e que se transformou num monte. Eis um oráculo político que destitui os poderes e diz que o poder tirano que está imperando no momento com a força (das armas e da ideologia) tem pés de ferro e de barro. E uma pedra sem mão, sem força e sem poder, é capaz de destruir o grande poder tirano e opressor. Anuncia-se o que põe fim ao sofrimento, a situação de crise e ao poder que persegue. É o projeto que vem pela força direta de Deus. A pedra que reduziu a pó o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro, representa um reino que Deus irá estabelecer "no fim dos dias".

Uma grande marca dos projetos de esperança das comunidades apocalípticas reside na ironização do poder. Ironias que são capazes de derrubar. Ironia que des-constrói as imagens do poder e combate a grande ventania. O tirano com os seus discursos, idéias e cultura não passa de um animal. Os impérios são bestas-feras, são partes de uma estátua que pode e deve cair. São fortes e fracos ao mesmo tempo. Na ironização as comunidades que resistem ao processo de invasão e aniquilação da cultura buscam forças e descobrem que elas são fracas e fortes ao mesmo tempo. No imaginário e na construção da esperança as comunidades apocalípticas caminham na certeza da vitória e na derrocada dos tiranos e poderosos. Nos seus projetos diferentes e não alternativos nasce a esperança na pedra sem mão e no Filho do Homem.

Como pensar nos projetos políticos que levem em conta a construção de uma sociedade mais humana e digna? Como contribuir para que os novos governantes possam quebrar de vez as marcas das alianças políticas com um poder tirano, violento e assassino? As eleições já demonstraram fortes indícios desta ruptura com uma organização política corrupta, nefasta, mentirosa e assassina.

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)