UMA SIMPLES TROCA DE PRATO

Continuamos nossas reflexões estimuladas pelo livro de Daniel. Texto aparentemente despretensioso em seus inícios, estranho em sua segunda metade; portador de histórias aparentemente ingênuas no começo e enigmáticas da metade para frente; lendário no começo e indecifrável depois; é assim que este livro, que recolhe expressões culturais de diversos tempos e origens, se nos apresenta.

Mas é difícil resistir a suas provocações, e isto já em sua primeira página. O problema colocado se situa no terreno do comer ou não comer, que traduz problema bem mais profundo: submeter-se ou não à lógica uniformizante do rei. Aderir ou não aos modismos imperialistas, modernos, atualizados, ou manter vetustas tradições, que conservam o passado e o recriam em tempos de prisão e exílio. Exílio em sua própria terra, pois, se a cena apresenta Daniel e seus companheiros na corte do rei da Babilônia, seus leitores e leitoras sabem muito bem a que se está referindo: à política de Antíoco Epífanes, destruidora das culturas particulares pela imposição de práticas globalizadas e uniformes, como se pode ler em 1 Mc 1.

De sorte que a força do império parece estar colocada em cheque pela decisão de Daniel e seus companheiros, aparentemente isenta de quaisquer outras conseqüências, de não comerem daquilo que suas leis e tradições não permitissem. E isto por duas razões: primeiramente porque ordem real é para ser obedecida, nunca questionada, e o gesto destes jovens indicará insubordinação em baixo das barbas do soberano (e o que não acontecerá então em suas regiões mais longínquas!); e depois porque os rapazes foram percebidos mais sábios e instruídos. E a Daniel será confiada a revelação de sonhos e visões fantásticas, em que o fim dos impérios é decretado, o cessar das tiranias é anunciado, e as possibilidades de vida do povo são proclamadas! Nabucodonosor estará abrigando em seu palácio, sem o saber, o arauto de sua ruína e dos impérios que vêm depois dele, cuja história leitores e leitoras do livro conhecem muito bem!

Dn 1 é uma bela introdução ao livro. Merece uma leitura atenta, visto que ao mesmo tempo carrega um sentido no seu interior, de resistência e esperança, de fidelidade e certeza, e adianta temas fundamentais de que se encarregarão os capítulos seguintes. Visões e sonhos, dizeres enigmáticos construirão um futuro renovado e libertado cuja tessitura passa pelos pequenos gestos de ousadia e destemor, já que o império tem pés de barro. Urge mirar bem...

POR:

Pedro Lima Vasconcellos
Doutorando em Ciências Sociais, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP, Instituto Teológico Pio XI e Instituto do Sagrado Coração (abelha@cidadanet.org.br)

Rafael Rodrigues da Silva
Mestre em Ciências da Religião, assessor do CEBI-SP, professor da PUC-SP,Instituto Teológico Pio XI, Instituto do Sagrado Coração e ITESP (rafaeli@cidadanet.org.br)