


"Neymarland"
SÃO PAULO - "Já foi vítima de racismo?" "Nunca. Nem dentro nem fora de campo. Até porque eu não sou preto, né?". Quem responde é Neymar, a nova divindade do fute¬bol brasileiro. Mesmo quem prefe¬re o génio apolíneo de Paulo Henri¬que Ganso deve admitir que o Dio-nísio da Baixada hoje é "o cara".
Não é bem o caso de discutir se Neymar é ou não é preto. Nem, tampouco, de encrencar com a es¬pontaneidade da sua resposta. Há nela muito mais inocência do que .veneno. Neymar é só mais um filho pobre e alegre dessa terra desigual e misturada que ficou subitamente famoso por obra e graça de seus pés.
A entrevista a Débora Bergamasco, publicada pela coluna de Sônia Racy no jornal "O Estado de S. Pau¬lo", é reveladora do que vai na cabe¬ça do jovem moicano da Vila.
A parte chata do sucesso? "Não tem parte chata. É sempre legal". Um sonho de consumo? "Queria um carrão". Mas já não comprou um por R$ 140 mil? "Queria um Porsche amarelo e uma Ferrari ver¬melha na garagem". Tipo de mulher? "Linda". Prefere as loiras? "Sendo linda tá tudo certo".
Alisa os cabelos? "Tem que alisar para o moicano espetar. E também pinto de loiro". Para onde gostaria de viajar? "Para a Disney. Gosto de parque de diversões, de brinquedos radicais". Tirou título de eleitor? "Não, nem queria, mas vou ter que tirar". Sabe quem são os candidatos a presidente? "Não sei, não".
A família de Neymar é evangélica. O pai gerência os rendimentos do filho e todo mês dá 10% à igreja.
O que pensar disso tudo? Que tal¬vez não seja descabido ver nesse mundo infantilizado de fantasias e clichés de consumo a nossa "Never-land". Há, inclusive, algo da figura etérea de Michael Jackson na arte de Neymar. E, se existe hoje algo co¬mo um "brazilian dream", ele pou¬cas vezes esteve tão bem caracteri¬zado como aqui, em "Neymarland".
Há no país 37 milhões de jovens de 16 a 24 anos. Metade deles não estuda. Pergunte o que gostariam de ser ou de ter sido. Quantos deles responderiam "Neymar"?
FERNANDO DE BARROS E SILVA
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